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Antigo fórum e cadeia pública de Araguari; o imóvel foi palco dos dois júris dos irmãos Naves
CRÉDITO Arquivo Histórico e Museu Dr. Calil Porto (Araguari-MG)

Veredicto: culpados

Pedro Pires, servente de pedreiro; Amim Jorge Jamil, sapateiro; Walter Hugo Pinto, dentista; e Abdon Silva, ferroviário. Todos eles estiveram presos na cadeia pública de Araguari nos períodos em que Sebastião José Naves e Joaquim Naves Rosa estavam encarcerados. A experiência do cárcere não é o único ponto que eles teriam em comum: os quatro seriam as únicas testemunhas de defesa no primeiro júri dos irmãos Naves.

Os olhares de toda a cidade de Araguari estavam voltados para o imóvel, obra concluída no final da década de 1910, que seria o palco daquele julgamento — hoje, a Casa de Cultura Abdalla Mameri. No segundo andar, o casarão era a sede do fórum municipal; no térreo, funcionava a cadeia pública, de onde foram trazidos escoltados, para serem julgados, os irmãos Sebastião e Joaquim.

Era 27 de junho de 1938, e os relógios marcavam 12h30. Começava o júri, sob a presidência do juiz Merolino Raimundo de Lima Corrêa. Perguntados se tinham alguma coisa a alegar em suas defesas, Sebastião diz que “o que assinou e consta do processo o fez por medo e devido aos maus-tratos recebidos da polícia.” Joaquim afirma “que não deve o crime que lhe foi imputado.”

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O imóvel que abrigou o fórum hoje é a Casa de Cultura Abdalla Mameri
CRÉDITO Gláucia Rodrigues
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A lista de jurados (E) e de testemunhas de defesa (D) no primeiro júri em Araguari
CRÉDITO Reprodução do documento

Frementes de angústia

“(...) que o fizeram tomar purgante de 15 em 15 minutos, sentado sobre tachinhas; que foi amarrado e surrado até falar mentiras embora resistindo durante 38 dias; que apanhou tanto que ficou com o corpo coberto de sangue, sofrendo injustiças e suplícios; que esses suplícios alcançaram sua própria mãe, a qual, nua, foi seviciada na polícia; que jura a sua inocência em nome de Deus e de seus filhos.”

Interrogatório de Sebastião José Naves, 1º júri, 27 de junho de 1938.

“(...) que se falou à polícia o que consta nos autos, foi a poder de pancadas; que se confirmou o que havia dito à polícia no interrogatório feito pelo juiz do sumário foi devido à insinuação da própria polícia, que lhe fez ameaças extremas, caso não confirmasse; que tem sido bastante judiado na polícia e pede a intervenção do MM. Juiz para que cessem os maus-tratos infligidos.”

Interrogatório de Joaquim Naves Rosa, 1º júri, 27 de junho de 1938.

João Alamy Filho, advogado de defesa dos réus, lembra, em seu livro “O Caso dos Irmãos Naves”, que Sebastião e Joaquim, ao falarem, são tomados pela comoção. “A voz trêmula, quase embargada (...). As palavras são cortadas. Abruptas. Inseguras. Trazem nos olhos o pavor da violência. Sempre presente. (...) Inquietos. Deslumbrados. Quase em pânico. Frementes de angústia.”

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Trechos dos interrogatórios de Joaquim (E) e Sebastião (D), em 27 de julho de 1938
CRÉDITO Reprodução do documento

Pairam dúvidas

As testemunhas de acusação são chamadas, uma a uma. O industrial Miguel Arcanjo Camarano e o funcionário público Otacílio Pinto de Oliveira, que acompanharam a reconstituição do crime, feita por Joaquim, são os primeiros. Questionados, afirmam que não sabem se o réu sofreu violências antes da diligência, ressaltando que não sofreu coação na presença deles.

São ouvidas Florisa Martins da Silva, que viu Benedito “no cabaré do parque de diversões” na noite do desaparecimento; João Batista Ferreira, o homem que passou a noite com ela, naquele domingo; Jorge Alves de Souza, motorista; José Lemos da Silva, comerciante sócio do Armazém Antônio Lemos & Filhos; e Guilherme Malta Sobrinho. Todos reiteram depoimentos dados anteriormente.

Em meio às respostas, pistas: “correu uma versão de que a vítima havia desaparecido levando consigo o dinheiro furtado”; “no espírito do depoente paira dúvida sobre a autoria do crime”; “sabe afirmar ter um primo de Benedito ido a São Paulo (...) procurá-lo a mando de seu pai”; “correu um boato de que Benedito havia desaparecido embarcando na estação da Mogiana”; “ouviu dizer que Benedito estava devendo uma certa importância”; “a opinião pública acusa os denunciados unicamente pelo fato de eles estarem sempre na companhia de Benedito”.

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Registros de cela da antiga cadeia pública de Araguari, já em 1962, anexados a um processo criminal
CRÉDITO Arquivo Histórico e Museu Dr. Calil Porto (Araguari-MG)

Quase mortos

Com 27 anos de idade, natural de Catalão, Goiás, Pedro Pires é a primeira testemunha de defesa a ser interrogada. Conta que presenciou “muitas vezes” o espancamento dos irmãos Naves pela polícia; que viu os denunciados “serem amarrados com as pernas e mãos abertas em tábuas dentro da prisão” e serem obrigados a beber “vários purgativos, ficando sem comer e beber durante vários dias para que confessassem.”.

O preso diz ainda que os réus confessaram quando “estavam quase mortos”, “para não morrer”, e que “saíam em várias diligências em companhia da polícia”. Diz que Joaquim, em uma dessas vezes, “saiu são da prisão e voltou com dois ferimentos de balas na nádega, não sabe se direita ou esquerda”, causados por bala; “que os denunciados eram frequentemente levados à beira do rio onde eram amarrados em árvores sendo alvos de tiros.”

Em um Salão do Júri lotado, o preso relata ainda ter ouvido dos denunciados, “por diversas vezes”, que a mãe deles havia sido espancada e “que numa dessas vezes Sebastião apanhara pancadas até escorrer sangue de seu corpo porque se recusara a bater em sua mãe para que ela confessasse onde se achava o dinheiro”; que os réus foram obrigados a sentar sobre tachinhas e tinham sido mantidos amarrados durante horas.

“(...) quando aqui esteve um delegado especial, retirara o denunciado Sebastião e o levara à fazenda de João Pereira onde o amarrara em uma árvore dando-lhe várias pancadas para que o mesmo confessasse; quando Sebastião voltou dessa diligência estava com o corpo todo manchado de roxo e preto e não podia andar; que o denunciado Sebastião ficara aleijado das pernas por algum tempo; que este denunciado dissera ao depoente e o depoente também ouvira das autoridades a ordem para que Sebastião confessasse ‘ainda que fosse mentira’ porque senão seria morto; que sabe ter estado presa durante vários dias a mulher de Sebastião em companhia de um filhinho que adoecera na cadeia vindo a morrer logo após sua saída; que essa prisão fora feita com o intuito de forçá-la a acusar o seu marido Sebastião e seu cunhado”

Depoimento da testemunha de defesa Pedro Pires, 27 de junho de 1938

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Espancamentos frequentes

Também natural de Catalão, Walter Hugo Pinto, 24 anos, é a segunda testemunha de defesa a falar. Afirma que “presenciou os espancamentos frequentes” sofridos pelos irmãos; “ao invés de beberem água porque passavam sede e fome, eram forçados a ingerir sal”; “foram amarrados com os braços e pernas abertos em tábuas sendo também sentados e amarrados” em cadeiras sobre as quais havia tachinhas.

A testemunha conta também que Joaquim voltou de uma das diligências “com dois ferimentos feitos por projéteis de arma de fogo em uma das nádegas”, provocados “pelas autoridades policiais”; “que o denunciado fora medicado fora da cadeia e voltara quando ainda os ferimentos não estavam cicatrizados e que nessa ocasião, ao arrancar os esparadrapos que fechavam os orifícios”, houve “uma pequena hemorragia.”

Walter Pinto também confirma que Ana Rosa Naves tinha sido espancada durante a prisão; que a esposa de Sebastião também foi mantida na cadeia pública, na companhia dos filhos, “sendo um de colo”, e que ele mesmo, “o depoente”, tinha aconselhado Sebastião a confessar o crime, “vendo que ele não resistia aos maus-tratos.”

O mineiro de Paracatu Abdon Silva, de 43 anos, e o sírio Amim Jorge Jamel, de 24 anos, são a terceira e a quarta testemunhas de defesa a serem ouvidas, respectivamente. Ambos corroboram as falas dos dois homens interrogados antes deles. Sobre os ferimentos à bala em Joaquim, Amin diz que não os viu, mas teve a confirmação disso “pelo dizer de outros presos que os procuraram ver.”

A revista O Cruzeiro, em 1958, reproduziu cena do filme “O Caso dos irmãos Naves”, de Luiz Sergio Person
CRÉDITO Eugênio Silva - D.A Press

Inocentes ou culpados

No júri, atuava como promotor Manoel das Neves Peixoto, da Comarca de Estrela do Sul, com competência ampliada para a Comarca de Araguari. A figura de auxiliar de acusação estava a cargo de Lírio do Vale Brasileiro, em substituição a Oswaldo Pieruccetti, que havia atuado nessa função, até ali, mas que na data estava doente.

“O Dr. Auxiliar de acusação entrou a acusar os réus, procurando provar que os mesmos não eram criminosos vulgares e sim perigosos bandidos, pois assassinaram, para roubar, traiçoeiramente, um amigo de ambos e, sendo assim, a sociedade precisava ficar livre de tais indivíduos e, por isso, os jurados do ‘Conselho’ deveriam condená-los nas penas pedidas no libelo acusatório.”

Ata da sessão de julgamento de 27 de junho de 1938

João Alamy Filho relata, em seu livro, a defesa apaixonada que fará dos irmãos, com a denúncia das torturas infligidas a eles e a seus familiares. Revela que sua oratória tinha sido especialmente impulsionada, apesar de todo o “ambiente de vingança” que pairava no Salão do Júri, pelo fato de o tenente Francisco Vieira dos Santos ter aparecido no julgamento e se postado a poucos metros dele, em uma atitude intimidante e representativa de toda a atuação violenta e arbitrária do delegado especial.

“Em seguida foi dada a palavra ao advogado de defesa, o qual (...) iniciou a defesa de seus constituintes procurando provar, com argumentos, que os mesmos não tinham praticado crime algum, pois não se encontrava nos autos prova alguma contra os mesmos, a não ser uma confissão que lhes foi arrancada a poder de pancadas e os maiores suplícios que lhes foram infligidos pela polícia e que prometia provar com os depoimentos das testemunhas de defesa oferecidas, e, sendo assim, os jurados do ‘Conselho’ que quisessem praticar uma grande justiça absolvessem os réus, pois não havia prova bastante que autorizasse a condenação (...)”

Ata da sessão de julgamento de 27 de junho de 1938

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A sentença absolutória, assinada pelo juiz Merolino Raimundo de Lima Corrêa em 21 de março de 1939
CRÉDITO Reprodução do documento

Júri anulado

Vem a votação dos sete jurados que compunham o Conselho de Sentença. Por seis votos a um, Sebastião José Naves e Joaquim Naves Rosa são absolvidos. Mas ainda não seriam postos em liberdade. Já em 1º de julho, o Ministério Público apela da sentença absolutória proferida pelo Tribunal de Júri de Araguari. À época, os réus deveriam aguardar presos até o processo transitar em julgado.

“Estávamos sob nova ditadura. Não havia garantias legais. Subvertia-se a ordem democrática. Extinto o Legislativo, o Poder Executivo sobrepunha-se à lei e ao Judiciário. Saía-se de uma breve revolução. Forçava-se a punição criminal comum, como substractum da punição criminal política. A pessoa humana, o cidadão era relegado a um plano inferior, secundário. Interessava-se apenas pelo Estado. A subversão da ordem influenciava a subversão do Estado. (...)”

Advogado João Alamy Filho, em “O Caso dos Irmãos Naves”

Em 25 de novembro de 1938, ao analisar o recurso, o Tribunal mineiro anula o júri. Os irmãos Naves deveriam ser submetidos a um segundo julgamento. A data marcada é 21 de março de 1939, às 12h30.

Interrogatório dos réus

Ao ser interrogado, no segundo júri, Sebastião mais uma vez revela que sua confissão “foi produto da violência policial”, tendo ele, seu irmão e sua mãe sido torturados na cadeia “durante 38 dias, amarrados em cruz nas grades, espancados diariamente dentro e fora da prisão, por ordem do tenente Vieira e de um delegado regional.”

“O declarante sofreu arrancamentos de dentes, a alicate e a pau; tomou vários purgantes; esteve sentado sobre tachinhas, passou 12 dias no banheiro, sempre apanhando até ficar desacordado; que levado à presença do pai da vítima, este declarou que seu filho fugira para não pagar 116 contos de réus que devia, levando o dinheiro que se alega ter sido roubado; que na noite do crime não saiu de casa, pois tinha um filho doente, a tomar remédio a todo instante; que tanto apanhou e tantos maus-tratos recebeu da polícia que chegaram a aconselhá-lo a suicidar-se; que está sofrendo inocente, por um crime que não praticou; que outras razões de defesa serão alegadas pelo seu advogado, o qual trabalha nesta causa por simples caridade.”

Interrogatório de Sebastião José Naves, em 21 de março de 1939

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Em foto que consta no processo, Sebastião mostra a boca sem dentes, já que todos foram arrancados durantes as torturas
CRÉDITO Reprodução do documento

Joaquim também declara que sua confissão nos autos “foi extorquida pela polícia, a poder dos maiores sofrimentos que se possa imaginar; que, convidado a vir à delegacia, foi preso e posto incomunicável, sem comer nem beber durante 31 dias; que levado para fora da prisão foi despido e untado o seu corpo de cabeça para baixo, sendo picado por insetos e ponta de faca.”

“(..) que recebeu dois tiros da polícia, caminhando dois quilômetros pelo mato, puxado por um alicate preso aos lábios; que na cadeia foi trancado no banheiro durante vários dias sem nutrição; que lhe meteram estrepes nas unhas e nos pés; que foi ameaçado de morte pelo sargento Sebastião, caso não confessasse onde estava o dinheiro; que jura a sua inocência e espera poder prová-la algum dia; que o que mais o fez sofrer foi o espancamento de sua mãe, na prisão, até ficar com o corpo preto.”

Interrogatório de Joaquim Nave Rosas, em 21 de março de 1939

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A mãe de Sebastião e Joaquim, Ana Rosa, no Salão do Júri do Fórum de Araguari , anos depois dos julgamentos dos filhos
CRÉDITO Arquivo Histórico e Museu Dr. Calil Porto (Araguari-MG)

Coação policial

Testemunhas de acusação são ouvidas. Guilherme Malta Sobrinho e João Batista Ferreira confirmam os depoimentos dados no primeiro júri. Sebastião Vieira Costa e Antônia Rita de Jesus, que não participaram do primeiro julgamento, testemunham dessa vez. Ele diz que “sabe por ouvir dizer que os denunciados apanharam e sofreram muitos tormentos por parte da polícia (...) sendo isso coisa pública na cidade.”

Antônia Rita se retrata de depoimentos prévios que havia dado. Conta dos suplícios sofridos por ela, pela sogra, Ana Rosa, e pela cunhada, Salvina Olina de Jesus, indicando que naquele momento dizia finalmente a verdade porque “o tenente Vieira foi embora e somente por isso se sente sem coação.”

“(...) o que depôs anteriormente não representa a verdade, porque suas informações foram prestadas tanto no inquérito como no sumário sob coação policial; que o tenente delegado de polícia na ocasião ameaçou a informante de vários suplícios, inclusive atirar uma filhinha menor para cima e escorá-la a faca; que o tenente ameaçou a informante de deixá-la por conta dos soldados durante a semana, se não acusasse seu marido; que o próprio escrivão do processo pisou no pé da informante para ser contra o seu marido.”

Depoimento de Antônia Rita de Jesus, em 21 de março de 1939

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Antônia Rita, esposa de Joaquim, muda seu depoimento no
segundo júri e conta o que sofreu durante os dias de prisão
CRÉDITO Reprodução de documento

Júri cassado

O julgamento está mais uma vez sob a presidência do juiz Merolino Raimundo de Lima Corrêa. Oswaldo Pieruccetti — que seria prefeito de Belo Horizonte de 1965 a 1967 e de 1971 a 1975 —, irá atuar como auxiliar da acusação, neste segundo júri; como adjunto do promotor de justiça, Moisés Rodrigues Alves. Na ata do julgamento, além desses dados, está registrada a observação do advogado João Alamy Filho, durante a defesa, de que “nem prova do falecimento da vítima havia nos autos.”

O Conselho de Sentença se reúne. “Pela segunda vez, por seis votos a um, os irmãos Naves são absolvidos pelos jurados de Araguari, mas, novamente, a acusação recorre”, observa o professor de Direito Penal da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Hermes Vilchez Guerrero.

Em 4 de julho de 1939, a Câmara Criminal do Tribunal de Apelação de Minas Gerais dá provimento ao recurso e cassa a decisão do Conselho de Sentença. Sebastião e Joaquim são condenados a 25 anos e seis meses de prisão, a serem cumpridos na Penitenciária Agrícola de Ribeirão das Neves.

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O Tribunal de Apelação de Minas Gerais, em 4 de julho de 1939, cassou a decisão do segundo júri
CRÉDITO Reprodução de documento
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Os irmãos Naves chegaram à então Penitenciária Agrícola de Neves em 1939; à direita, a construção de casas para abrigar funcionários
CRÉDITO Arquivo Público Mineiro

Complexo agrícola

Construída para ser um complexo penitenciário modelo, a Penitenciária de Neves havia sido inaugurada em 18 de julho de 1938 pelo presidente Getúlio Vargas. "Eu me mudei para Neves em 1941, ainda menino, porque meu pai era militar. Neves era um acúmulo de fazendas", conta Salvador Thomé da Silva, funcionário aposentado do presídio, onde trabalhou de 1959 a 2008.

Salvador explica que famílias foram convidadas para trabalhar na penitenciária, que era então dirigida por José Maria Alkmin anos depois, ele seria vice-presidente do Brasil; hoje, a unidade leva o nome dele. Uma vila de casas foi então construída para receber os trabalhadores e seus familiares, contígua aos edifícios que abrigavam os detentos.

"O arraial não tinha nada, não tinha água nem luz, só no terreno da penitenciária e na igreja que também passou a funcionar aqui. Era o sonho de Getúlio Vargas fazer no continente sul-americano uma penitenciária essencialmente agrícola, que trabalhasse na reinserção do preso na sociedade", conta o servidor, que ainda mora no local.

Por isso, em Neves, completa Salvador, "todos trabalhavam". Ele se lembra de que, às 5h30, tocava a sirene para os presos acordarem; às 6h30, nova sirene soava para os detentos saírem para trabalhar. "A penitenciária fazia melado, rapadura e havia cultivo de arroz, cultivo de milho, de feijão", recorda-se. O modelo era de autossubsistência.

Presos políticos

Os irmãos Naves seriam alguns dos primeiros presos a cumprirem pena na recém-inaugurada penitenciária, quando ali chegam, em agosto de 1939: Sebastião é registrado com o número 792; Joaquim, 793. O local não abrigava apenas presos comuns. Para lá eram enviados também presos políticos. Entre eles, João Edmundo Caldeira Brant, avô do desembargador Marcos Henrique Caldeira Brant, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.

“Meu avô era deputado. Quando Getúlio Vargas fecha as casas legislativas, ele perde o mandato e passa a advogar”, conta o desembargador. Edmundo era opositor ao Estado Novo: redigia artigos; fazia discursos-relâmpago, juntando pessoas em praças públicas; e produzia e imprimia boletins, que foram dados como subversivos por serem contra a ordem política da época. Processado pelo Tribunal de Segurança Nacional, ele é condenado a uma pena de seis meses de prisão.

“Esse Tribunal era uma verdadeira excrescência na época, uma nódoa no nosso sistema judiciário. Ele se assemelhava ao Tribunal Popular da Alemanha nazista”, observa o desembargador Marcos Henrique Caldeira Brant. Uma vez na Penitenciária Agrícola de Neves, João Edmundo será recebido pelo diretor José Maria Alkmin, que o mantém não nas celas, mas na casa de um dos funcionários, na chamada Esplanada, e o designa para chefiar a seção jurídica do estabelecimento.

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O desembargador do TJMG Marcos Henrique Caldeira Brant, neto do advogado João Edmundo Caldeira Brant (D)
CRÉDITO Gláucia Rodrigues

Pena reduzida

“Como em toda seção jurídica, os diversos presos iam até lá frequentemente conversar com o advogado, falar dos processos, declarar-se inocentes e reclamar das penas impostas. Assim meu avô conheceu os Naves e se interessou pelo caso, pediu o processo e o analisou detidamente. Ele ficou convencido da inocência deles, até pelas audiências pessoais dadas aos dois irmãos”, explica o desembargador.

O advogado João Edmundo Caldeira Brant começou então a trabalhar no caso. “Ele inclusive encaminhou uma carta para o advogado dos irmãos Naves, o Dr. João Alamy Filho — excelente advogado à época, muito combativo e dedicado, que do início ao fim defendeu os irmãos Naves. Meu avô perguntou se ele achava que os irmãos eram inocentes”, conta o desembargador Marcos Henrique Caldeira Brant.

Em 5 de junho de 1940, Sebastião e Joaquim entram com um pedido de revisão criminal, elaborado por João Edmundo. O acórdão do Tribunal de Apelação, em 14 de agosto daquele ano, embora destaque não haver dúvidas “de que as primeiras declarações foram obtidas por espancamento”, ao apreciar o pedido, mantém a condenação; a pena, contudo, é reduzida para 16 anos e seis meses.

A passagem foi registrada por João Edmundo Caldeira Brant em seu livro de memórias “Reminiscências”, na qual ele conta ainda ter levado ao diretor do presídio, anos antes de Benedito aparecer, a notícia de que o primo dos irmãos Naves teria sido visto em Goiás. “Dei a notícia ao Dr. José Maria Alkmin, pedindo-lhe promover nova investigação policial. Não concordou comigo, dizendo que a notícia era devido à rivalidade entre policiais, que os homens eram mesmo criminosos”, contou.

Nos autos, há ainda o registro de um pedido de indulto dirigido por Sebastião e Joaquim ao presidente Getúlio Vargas, em outubro de 1942, “mas que não teve andamento por circunstâncias que não constam no processo.” Na carta ao advogado João Alamy, João Edmundo afirmava que os irmãos não queriam recorrer a esse instrumento, por se declararem inocentes.

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A penitenciária de Neves, que hoje leva o nome de José Maria Alkimin; à direita, a esplanada com casas de funcionários 
CRÉDITO Gláucia Rodrigues 

Cartas trocadas

Anos depois, a revista “Manchete” traria trechos de cartas trocadas entre Joaquim e sua família no período em que os irmãos Naves cumpriram pena na Penitenciária Agrícola de Neves. “Enquanto eu vou indo meio aperrengado, peço a você e a Lícia tirarem retratos e mandarem pra mim. Peço também me escreverem ao menos de mês em mês, pois o dia que recebo suas cartinhas fico muito satisfeito”, escreveria Joaquim, ainda em 1939, dirigindo-se à esposa.

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Em agosto de 1942, em outra carta, a mãe diz ao filho: “Penso que Deus vai me ouvir, Quinca. Fiquei muito satisfeita de saber que o Sebastião está trabalhando na lavoura, creio que para ele é uma diversão. Meus filhos, peço para vocês terem paciência na última hora. O pior já passamos, pois Deus tarda mas não falta (...) ando rezando e pedindo a Deus para que Benedito apareça para ver se assim nós podemos ter descanso na vida. Espero que até o fim do ano nós estejamos juntos”.

Como um relâmpago

Ainda levaria alguns anos para a família se reunir novamente. Em abril de 1946, os irmãos Naves entram com o pedido de liberdade condicional. O Conselho Penitenciário, por unanimidade, opina pela concessão, destacando o bom comportamento carcerário deles em Araguari e informando que, em Neves, eles “souberam conquistar (...) o conceito de homens da confiança da Administração.”

A liberdade condicional é concedida pelo juiz Fernando Bhering, da Comarca de Araguari, em 12 de agosto de 1946. Em 1º de setembro, os irmãos deixam o complexo prisional; haviam cumprido, em regime fechado, oficialmente, mais de oito anos e meio de prisão — cerca de um ano e seis meses na cadeia pública de Araguari e o restante na Penitenciária Agrícola de Neves.

Mas eis que, em 1952, Ana Rosa repetiria a jornalistas: “Deus tarda, mas não falta.” Benedito reaparece —“o morto-vivo”, como será chamado pela população de Araguari e pela imprensa. O jornal “A Noite”, de 29 de julho de 1952, trouxe a informação: “A notícia corre como um relâmpago. E em pouco tempo, pessoas das cidades vizinhas estavam diante da cadeia, querendo ver Benedito, que se mantinha calmo, sem nada dizer.”

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Sebastião Naves, no corredor da Penitenciária Agrícola de Neves, quando ele já não cumpria mais pena ali
CRÉDITO Eugênio Silva - D.A Press