
Martírio de inocentes
“1937. Novembro, 29. Araguari, bela e jovem cidade mineira, afronteirando Goiás, amanhece alegre. Sol e vida. Ruas largas. Cidade moderna. Grande empório cerealista. Gente boa, ordeira. De alta moral. Grande evolução intelectual. A vida é igual e singela. Os dias aparentemente iguais. Mas aquele, não. Era um dia desigual e diferente para Sebastião José Naves e Joaquim Naves Rosa.”
Advogado João Alamy Filho, em “O Caso dos Irmãos Naves”
Com essas palavras, João Alamy Filho inicia o livro “O Caso dos Irmãos Naves”, no qual ele, na condição de advogado de defesa, narra o calvário enfrentado por Sebastião José Naves e Joaquim Naves Rosa, acusados de matar o primo Benedito Pereira Caetano para roubar cerca de 90 contos de réis — uma pequena fortuna no final da década de 1930.
O 29 de novembro de 1937 será, de fato, um dia incomum para aquela família. Amanhece, e os irmãos Naves se dão conta de que Benedito havia passado a noite fora. A cadeira que ele havia deixado escorando a porta de entrada da casa de Joaquim, onde estava hospedado, permanece lá, inabalável, desde a véspera. E a manhã escorre, sem que o primo apareça.
Sebastião e Joaquim se inquietam, pois esse comportamento não era usual por parte de Benedito, e eles sabem que o primo havia saído levando consigo o dinheiro resultado da venda de mais de duas mil sacas de arroz. Os dois saem pela cidade em busca de Benedito, em uma procura que se revela vã. Sem conseguir notícias, os irmãos tomam uma decisão que mudará o curso de suas vidas: resolvem ir à Delegacia de Polícia, para reportar o sumiço. Caminham em direção a trágicos destinos.

CRÉDITO Arquivo Histórico e Museu Dr. Calil Porto (Araguari-MG)
Sem rastro
O delegado civil Ismael Benedito do Nascimento ouve as preocupações dos dois irmãos e os orienta a ir até o distrito de Iraí, em Monte Carmelo, verificar se, por acaso, Benedito havia chegado à casa dos pais. Entretanto, o primo tampouco está lá. Eles voltam para Araguari, trazendo o agricultor João Pereira Silva, pai de Benedito. É terça-feira, 30 de novembro. Chegam, e retornam à Delegacia. Começa o primeiro inquérito policial.
“Chegando ao meu conhecimento que ontem desapareceu nesta cidade, sem deixar quaisquer informações com as pessoas das suas relações sobre o destino que tomaria, causando esse desaparecimento suspeitas de crime, visto conduzir o desaparecido que é Benedito Caetano a importância, em dinheiro, de mais de 90 contos de réis, e cumprindo se proceder às necessárias investigações, determino ao Ilmo Escrivão que intime para depor sobre dito fato as testemunhas (...)”
Delegado civil Ismael Benedito do Nascimento, 30 de novembro de 1937
“As instituições não eram como hoje: não tínhamos um delegado de polícia bacharel em Direito: antigamente, chamava-se delegado de calça curta, na linguagem popular. Ele não tinha uma formação jurídica, muito menos humanista”, observa o professor de Direito Penal e diretor da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Hermes Vilchez Guerrero.

CRÉDITO Reprodução do documento
Testemunhas convocadas
Testemunhas que estiveram com Benedito na véspera são, então, convocadas, relatam os últimos momentos delas com o desaparecido e informam sobre os hábitos de Benedito em Araguari, nas semanas anteriores. “Benedito é um rapaz de 27 anos, claro, baixo, de corpo regular, solteiro, sem vício de espécie alguma e de ótimo procedimento”, declara Sebastião Naves.
João Pereira, o pai, conta que o filho, em carta, havia afirmado que no final do mês voltaria para a casa, depois de vender, “por qualquer preço que encontrasse”, o arroz que vinha armazenando. O fazendeiro acrescenta que “absolutamente não pode desconfiar de quem quer que seja que possa ter dado causa a esse desaparecimento, pois era um rapaz estimado por todos, sem uma inimizade e muito correto em seus negócios; não tinha vício algum nem costume de passar noites fora de casa.”
Um dos intimados é José Lemos da Silva, industrial, sócio da firma Antônio Lemos & Filhos. Ele diz que mantinha com Benedito “relações comerciais de compra e venda de arroz”, e confirma que o cereal comprado por Benedito tinha sido depositado em seu armazém. “Benedito, além de ser um rapaz muito calado, isto é, de pouco conversar, demonstrou sempre ser pessoa de bom moral, criteriosa e morigerada em tudo”, afirma.
Entre outras pessoas que depõem, além dos irmãos Naves, estão ainda Florisa Martins da Silva, com quem Benedito havia passado algumas noites nas semanas anteriores; o homem com quem a mulher esteve na madrugada do desaparecimento, João Batista Ferreira; e Sebastião Vieira da Costa, o comerciário que foi em companhia de Benedito ao parque de exposição em comemoração aos 50 anos de Araguari.

CRÉDITO Gláucia Rodrigues
Como pólvora
A essa altura, a notícia de que Benedito havia sumido, e que poderia ter sido vítima de um latrocínio, já havia se espalhado como pólvora. “Os irmãos noticiam o desaparecimento inocentemente. A Delegacia tinha sete soldados e um sargento: esse era o efetivo. Diligências são feitas, e não se descobre nada. A população da cidade começa a questionar o que teria acontecido”, observa Juscélia Abadia Peixoto, servidora do Arquivo Público Municipal Doutor Calil Porto.
A historiadora ressalta que o presidente Getúlio Vargas, que havia acabado de instaurar oficialmente o Estado Novo, expressava o desejo de estabelecer um Estado perfeito, em vários sentidos, e o combate à criminalidade era um aspecto que se destacava nessa moldura. Um suposto latrocínio, em uma cidade que já tinha estigma de porta para o sertão, precisava ser solucionado rapidamente. Era preciso dar uma resposta — e um recado implacável — para a sociedade.
“O tempo passou. Passou. E nada. Novidades? (...) Ninguém sabia, ninguém dizia. A tensão popular cresce como enchente em regato de beira-serra. (...). É preciso delegado militar. Experimentado. Inteligente. Diligente. Com escola. Pede-se. Vem! (...) O governo do Estado sabe. Recebe. Atende. Manda o delegado. Escolhido. Vai resolver. Ele resolverá. De que jeito? Quem sabe? Espera-se e se confia nele. Nenhuma suspeita ainda. Nenhuma pista. Só um militar. Só e só.”
Advogado João Alamy Filho, em “O Caso dos Irmãos Naves”
Francisco Vieira surge no processo como delegado
responsável pela investigação
CRÉDITO Reprodução do documento

O algoz
De acordo com o desembargador Marcos Henrique Caldeira Brant, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, antigamente, como eram poucos os cursos de Direito e os bacharéis, era comum a Secretaria de Polícia ou a Secretaria de Estado de Segurança designar oficiais da Força Pública como delegados. "Eles recebiam o nome de delegados especiais. Via de regra, esses oficiais da força pública não tinham nenhuma formação jurídica", pontua.
A presença de delegados militares era também uma forma de o governo manter influência sobre as forças policiais, já que o regime centralizador do Estado Novo buscava controle político e social. "O secretário de segurança do governo de Minas Gerais envia então, para Araguari, um delegado militar — o tenente Francisco Vieira dos Santos", conta o professor Vilchez.
"Francisco Vieira dos Santos, tenente da polícia de Minas, grisalho, 50 anos, quase na aposentadoria. Apenas tenente. Carreira curta. Falta de instrução. De outros conhecimentos. Não subia. Não subiu. Foi ao cume: tenente. Boa aparência. Bons dentes. Bigode cheio, aparado. Cabelos oleados, sem partimento. Curtos. Olhos vivos, maliciosos. Sempre fardado, e bem limpo. Bem passado. (...) Era uma esperança. A Justiça, inquieta, espera. O povo espera. Vai entrar em ação. Vai descobrir, vai prender. Mas, descobrir o quê? Prender quem? Que terá acontecido ao Benedito? Furtado? Morto? Fugido? Cada um faz uma hipótese. O povo fica nas esquinas. Nas casas comerciais. Nos salões de barbeiro. Sai das igrejas. Dos templos. Sempre Benedito. Benedito? Que terá acontecido ao Benedito?"
Advogado João Alamy Filho, em "O Caso dos Irmãos Naves"

a Araguari para resolver o caso a qualquer custo
CRÉDITO Eugênio Silva - D.A Press
Cerco se fecha
Já no comando da Delegacia de Polícia de Araguari, em 29 de dezembro de 1937, o tenente Vieira ouve novas testemunhas. Uma delas é o motorista José Joaquim Teodoro de Lima, conhecido como José Prontidão, morador de Uberlândia. Prontidão conta que no mês anterior se encontrava na porta do Armazém Geraes, naquela cidade, quando presenciou um “indivíduo desconhecido” pedir trabalho ao proprietário da empresa.
Essa pessoa, segundo a testemunha, teria dito que se chamava “Benedito Pereira” e teria trabalhado ali “por dois ou três dias”, tendo depois comentado que pegaria “uma beirada em caminhão” com destino a Uberaba ou São Paulo. Prontidão explica que semanas depois esteve em Araguari, quando pernoitou na casa de Ana Rosa Naves, mãe de Joaquim e Sebastião.
Na ocasião, Ana Rosa lhe perguntou se em Uberlândia não teria aparecido um “rapaz de nome Benedito”. Prontidão conta então do sujeito que trabalhou no Armazém Geraes por uns dias. A notícia chega ao delegado militar, pela voz dos próprios irmãos Naves; por isso, o tenente Vieira manda a polícia buscar Prontidão, em Uberlândia, para prestar o depoimento. Ele reproduz na delegacia a história.
Aos 66 anos, viúva, sabendo apenas assinar o próprio nome, Ana Rosa Naves é a segunda testemunha ouvida pelo novo delegado. Ela repete o que os filhos já haviam informado à polícia sobre Benedito, acrescentando que, depois de receber o cheque pela venda do arroz, o desaparecido ficara “a fazer contas”. A mulher reitera o que Prontidão havia contado no próprio depoimento.

CRÉDITO Reprodução de documento (E) e Gláucia Rodrigues (D)
Correr o mundo
O lavrador Orcalino da Costa e Silva, conhecido como “Orcalino Tubém”, explica que havia ido à inauguração da Ponte do Veloso com os irmãos Naves e Benedito. Como tem um álibi, ele é descartado como suspeito. Mas seu testemunho traz uma observação: “no ver dele, depoente, os responsáveis pelo desaparecimento de Benedito são as pessoas que com ele residiam nesta cidade, Joaquim Naves e Sebastião Naves, e onde Benedito dormia e comia.”
São ouvidas ainda as esposas dos dois irmãos. Antônia Rita de Jesus, casada com Joaquim, é a primeira. Sobre ela, diz o advogado João Alamy: “Mocinha, vinte anos. Medrosa. Encolhida. Nunca vira a delegacia. Nem soldados, de perto. Tem medo. Treme. Não assina o nome. Não lê. Não escreve. Rústica. Simples, roceira. Prima do Benedito.”
Antônia Rita afirma que Joaquim, na noite em que Benedito desapareceu, “permaneceu em casa, de lá não saindo até o dia seguinte, em virtude de estar adoentado”. Afirma ainda que Benedito dissera a ela e ao marido “que não mais voltaria à casa paterna (...); que Benedito estava mesmo com a intenção de desaparecer daqui para bem longe, logo após o recebimento de seu dinheiro.”
A esposa de Sebastião é ouvida na sequência. “Salvina Olina de Jesus, moça também. Vinte e cinco anos — três filhos. Pequenos. Um de meses. Nasceu depois que Benedito mudou pra cá: Wilson. Está mamando. Está com ela”, narra o advogado João Alamy. Assim como Antônia Rita, a testemunha não sabe ler nem escrever.
Salvina também afirma ao tenente Vieira que seu marido não saiu de casa na noite de 28 de novembro. Diz ainda que “Benedito falava sempre aos seus amigos e conhecidos que desejava ‘correr mundo’, e que toda a sua família está ciente disso; que a depoente julga que Benedito esteja viajando como sempre lhe dizia, não julgando que tenha sido assassinado.”


CRÉDITO Eugênio H Silva - DA Press
Rainha das provas
“Sempre que há um crime, busca-se um suspeito, e todo homicídio tem uma motivação. Quem tinha interesse na morte deles? Na avaliação dos investigadores, os irmãos Naves”, explica o professor Hermes Vilchez. Logo que começam as primeiras inquirições, o tenente Vieira se convence da culpa deles e passa a atuar em busca da confissão. Considerada a “rainha das provas”, a confissão, à época, seria o suficiente para condená-los.
“Com a chegada do tenente a Araguari, começa o martírio dos irmãos Naves. As investigações tomam o rumo no sentido de culpar Sebastião e Joaquim, mesmo eles tendo sido interrogados e não tendo sido achado nada contra eles. O delegado usa a tortura, buscando a confissão; e eles confessam, depois de vários martírios, tanto deles quanto da família”, frisa a historiadora Juscélia.

CRÉDITO Gláucia Rodrigues
Som de fundo
“Devo acrescentar um algo que importa muito para a apreensão da narrativa: é que esta é acompanhada do princípio ao fim por uma levíssima e constante dor de dentes, coisa de dentina exposta. Afianço também que a história será igualmente acompanhada pelo violino plangente tocado por um homem magro bem na esquina. A sua cara é estreita e amarela como se ela já tivesse morrido. E talvez tenha.”
Clarice Lispector, em “A Hora da Estrela”
Desse ponto em diante, o caso dos irmãos Naves também ganha um som de fundo, que o acompanhará incessantemente: o barulho dos tipos metálicos de uma máquina datilográfica atingindo o papel: o tom seco de quando a tecla é pressionada; a fita sendo movimentada; o retinir da carruagem retornando o início da linha quando se alcança o final dela.
Há também gritos vindos de porões; abre e fecha de ferrolhos e celas; sons estéreis de socos e outros borbulhantes, próprio de afogamentos; vozes débeis a rogar por água e um punhado de comida; insultos vociferados aos berros; e choro de homens, mulheres e crianças.

Diferentes suplícios
Depois de testemunhar, Prontidão é preso pelo tenente Vieira, que põe em marcha uma série de torturas, por seis dias seguidos, até que a testemunha muda seu primeiro depoimento e afirma que a história de um "Benedito Pereira", que ele teria conhecido em Uberlândia, tinha sido inventada a pedido de Joaquim. Prontidão assina a nova declaração em 3 de janeiro de 1938.
Nos porões da Delegacia de Polícia de Araguari e da cadeia pública, de maneira clandestina, Sebastião e Joaquim eram mantidos presos e também vinham sendo vítimas de inúmeras atrocidades. Anos depois, o jornal "Correio do Sul" e a revista "O Cruzeiro" listariam 14 diferentes suplícios sofridos por eles nas mãos de seus algozes, engenhosos em provocar sofrimentos nos corpos dos suspeitos — de extração de dentes com alicates e paus a estocadas com pontas de faca.
"O tenente retém o inquérito. Espera a confissão (...). Ele dirige. Forte. Seguro. Com mão de ferro. (...) Os Naves estão presos desde o dia 29 [de dezembro]. Sem comer. Sem beber. Apanhando. Nus, vez por outra. Passam-se dias. Seu cérebro trabalha. Maquina. Precisa encontrar um meio de obrigá-los à confissão. (...) De 3 a 7 de janeiro, o tenente preparou os indigitados matadores de Benedito. Formou a opinião pública. A delegacia foi o centro das atenções da cidade. O tenente estava seguro da culpa dos Naves. Hoje. Amanhã. Confessariam. (...) Os Naves não contavam. Não queriam. Não podiam. Não sabiam. Eram de bem. Não podiam se condenar. Aguentavam, resistentes. A polícia agia implacavelmente. Com invulgar ferocidade. E nada! Dez dias de prisão. Secreta. Sem falar. Sem comer. Apanhando. Amarrados. Amordaçados, como cães. Nus no porão da delegacia. Sem luz, quase sem ar."
Advogado João Alamy Filho, em “O Caso dos Irmãos Naves”

CRÉDITO Arquivo Histórico e Museu Dr. Calil Porto (Araguari-MG)
De emboscada
Ana Rosa, quase septuagenária à época, não será poupada. Presa, ela é despida e mantida nua durante os sete dias em que permanecerá encarcerada. A mãe é torturada e estuprada pelos soldados, na frente dos filhos. Sofre também com frio, sede e fome. O tenente Vieira ordena que os irmãos Naves espanquem a própria genitora, mas eles se recusam a fazer isso, sendo torturados na frente dela.
Por volta daqueles dias, o tenente aparece com outra testemunha, que irá complicar ainda mais a vida dos irmãos: o motorista Guilherme Malta Sobrinho, que em 7 de janeiro afirma ter visto o caminhão que Benedito tinha em sociedade com Joaquim ser conduzido por Sebastião ao longo da madrugada do desaparecimento.
Intensificam-se as práticas medievais. Sem mais forças para resistir, em 12 de janeiro de 1938, Joaquim se rende à violência que vinha sofrendo e confessa ter cometido o latrocínio. Conta que ele e o irmão esperaram Benedito chegar do parque de diversões, às 2h da manhã, para convidá-lo a dar um passeio até Uberlândia. No caminho, ao pretexto de beber água, eles param o caminhão depois da Ponte do Pau Furado, onde Benedito é estrangulado e tem o corpo arremessado nas corredeiras do rio.

CRÉDITO Frederico Ozanan
Caindo de joelhos
O crime é narrado por Joaquim passo a passo: ele e o irmão usaram uma corda de bacalhau de “um metro e tanto” para matar a vítima; Sebastião agarrou o primo “pelas costas” e Benedito “desfaleceu, caindo de joelhos até ficar sem vida”; procuraram os cerca de 90 contos de réis nas roupas do morto; e combinaram de sair em busca de Benedito pela manhã para não levantar suspeitas.
Com as próprias unhas, os dois irmãos, segundo a confissão de Joaquim, teriam cavado um buraco no meio mato, numa área de fazenda, quando retornavam a Araguari. Ali enterram o dinheiro, dentro de uma lata. “(...) fizeram de baliza duas árvores das proximidades a fim de que em ocasião oportuna fossem retirar o fruto dos saques”, diz, no depoimento.
Confissão de Joaquim Naves Rosa, em 12 de janeiro de 1938


CRÉDITO Gláucia Rodrigues
Primeiro tributo
Salvina e Antônia Rita também são presas dias depois, em 24 de janeiro — o tenente Vieira acredita que elas sabem o paradeiro dos mais de 90 contos de réis roubados. A esposa de Joaquim, ante a ameaça de ser despida e entregue à sanha dos soldados, decide culpar o marido e o cunhado pelo latrocínio, em um depoimento no qual corrobora a confissão de Joaquim. No cárcere, ela está acompanhada da filha.
Salvina ainda resiste. A esposa de Sebastião tem consigo duas crianças: Ivo, de aproximadamente três anos de idade, e o bebê Wilson.
“Salvina continua presa com seus filhinhos. Passa fome. Passam sede. Frio de umidade. Um dia. Dois dias. 25, 26 de janeiro. A 27 [janeiro], Wilson (...) já não aguenta mais. O leite materno havia secado. Pobre criança. Adoece. Salvina, a mãe e a esposa heroica, confina sua resistência física à moral. Exausta. Pelos filhinhos que ela vê chorarem através das grades. Ivo está tão magro que passa para fora por entre as grades de fero. Mas resiste ainda. (...) Preferia morrer com seus filhos a acusar seu marido inocente.”
Advogado João Alamy Filho, em “O Caso dos Irmãos Naves”
Quando suas roupas começam a ser rasgadas pelos soldados, Salvina atinge seu limite e também depõe acusando os irmãos Naves — é 27 de janeiro, de acordo com o advogado de defesa João Alamy Filho; contudo, nos autos do processo, o tenente muda a data para 24 de janeiro, já que havia mantido a mulher presa ilegalmente ao longo de quatro dias.
O filho caçula de Salvina e Sebastião não resiste aos dias de prisão: Wilson Rosa Naves morre poucas semanas depois, aos 10 meses de idade. O atestado de óbito indica como causa da morte “atrofia alimentar, rinofaringite e bronquite”. João Alamy Filho diria, anos mais tarde: “A morte do inocente era o primeiro tributo da família Naves ao obscurantismo da atuação do tenente delegado de polícia.”

CRÉDITO Gláucia Rodrigues