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Sebastião Naves, em 1952
CRÉDITO Eugênio H. Silva - D.A Press

Reviravoltas do destino

Um telegrama chega às mãos de Sebastião José Naves, em 24 de julho de 1952. Tinha sido enviado por um parente dele, Fernando Naves. Nas poucas palavras, uma mensagem monumental: Benedito Pereira Caetano estava vivo e se encontrava na fazendo do pai, João Pereira da Silva, em Nova Ponte.

Sebastião se dirige de imediato à Delegacia de Polícia da cidade, na companhia de um repórter do jornal “Diário de Minas”, Felício De Lucia Neto. O delegado especial Georgino Jorge Souza autoriza o Naves, que ainda cumpria liberdade condicional, a viajar até a outra comarca, acompanhado do jornalista e de um cabo de polícia.

Supõe-se que Sebastião estivesse com o coração em sobressaltos, enquanto o motorista avançava o carro pelas dezenas de quilômetros que separavam Araguari de Nova Ponte. A cada trecho da estrada percorrido, mais perto estava ele de um momento com que sonhava todos os dias: encontrar Benedito vivo e, assim, provar sua inocência.

É meia-noite quando o grupo rompe o silêncio da madrugada e bate à porta da casa de João Pereira. O pai confirma que Benedito voltou, mas não está ali, e sim na fazenda do genro, Antônio Pires, nas proximidades. Todos rumam para a propriedade. Ali chegando, Sebastião avança casa adentro, dirigindo-se ao quarto onde Benedito dormia. Os dois primos, depois de 15 anos, estavam face a face.

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O improvável reencontro de Sebastião Naves e Benedito Caetano
CRÉDITO Arquivo Histórico e Museu Dr. Calil Porto (Araguari-MG)

Não me mate

Depoimentos tomados na Delegacia de Polícia e diversas matérias que serão publicadas nos dias seguintes, em todo o país, narram esse encontro entre Sebastião e Benedito. Em algumas reportagens, o diálogo entre os dois é reproduzido. “Pelo amor de Deus, não me mate”, teria dito Benedito. Sebastião então o abraça, e diz: “Eu não vou lhe matar, primo. Graças a Deus você apareceu, pois agora eu posso provar minha inocência.”

Em 23 de agosto de 1952, a revista “O Cruzeiro”, um dos periódicos do país mais prestigiados à época, trouxe uma longa reportagem sobre o caso. O texto dizia que Sebastião, logo após a “comprovação pública de sua inocência”, havia ido ao Cemitério Municipal de Araguari, onde se ajoelhou diante da sepultura de Joaquim Rosa Naves.

Joaquim havia morrido no Asilo São Vicente de Paulo, em Araguari, aos 39 anos de idade, em 28 de agosto de 1949. Apenas três anos antes, ele ganhara liberdade condicional. O atestado de óbito registrava, como causa da morte, “caquexia” — fraqueza e perda de peso grave — e “apendicite crônica”, condições provocadas pelo vidro moído que tinha sido obrigado a ingerir para confessar o latrocínio.

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A revista “O Cruzeiro” revelou que Sebastião, após a comprovação pública de sua inocência, ajoelhou-se diante da sepultura de Joaquim
CRÉDITO Eugênio H Silva - DA Press

Acontecimento popular

Benedito é conduzido à Delegacia de Araguari, onde é detido para prestar esclarecimentos. Era 25 de julho de 1952, e a cidade convulsiona com a notícia; uma multidão se dirige para o local. O “Diário de Minas” trará, naqueles dias, reportagens sobre o caso. Em uma delas, o jornal estamparia em letras garrafais: “O povo chora de emoção nas ruas de Araguari diante da revelação do clamoroso erro judiciário.”

“A chegada de Benedito provocou um verdadeiro acontecimento popular na cidade. Todos vieram para as ruas. Sebastião; a sua velha mãe, Ana Rosa; a mulher de Sebastião; os filhos deste; e a viúva de Joaquim eram abraçados por todos, em meio de lágrimas de alegria. Ana Rosa exclamava: ‘Eu sempre disse! Meus filhos não mataram ninguém! (...)’ Sebastião chorava e mostrava cicatrizes. Tudo era alegria. A própria população mostrava-se alegre e feliz”

Jornal “Diário de Minas”, 27 de julho de 1952

Nilson José Rosa, hoje com 80 anos de idade, tinha apenas seis quando Benedito reapareceu. Mas se recorda com detalhes daquele dia. “Estávamos indo para a casa do meu padrinho, para levar uma porca que meu pai estava mandando para ele. Chegamos à fazenda de manhã e nos deram a notícia. Voltamos, então, correndo para a nossa fazendinha e contamos para o meu pai, que pegou a família inteira e seguiu para a cidade”, lembra-se.

O pai dele, Manoel Naves, era irmão de Sebastião e Joaquim; Ana Rosa Naves, a matriarca, morava na casa de Nilson. “Havia uma fila de um quarteirão na frente da cadeia para ver o Benedito”, conta. Como eles eram parentes dos irmãos Naves, foi permitido que passassem na frente dos curiosos. “Eu vi Benedito preso”, diz. Seus tios soltaram foguetes, em comemoração, e a cidade encheu-se de repórteres “tirando fotos”.

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Jornais registraram populares em frente à antiga cadeia pública de Araguari, quando Benedito reapareceu
CRÉDITO Reprodução do Diário de Minas

Trem para Goiás

Ainda em 25 de julho de 1952, aos 42 anos de idade, Benedito presta um depoimento na Delegacia de Araguari. Pela primeira vez, as palavras dele teriam lugar no processo dos irmãos Naves, já em seu terceiro volume. Ele começa contando que havia pegado emprestado do cunhado Pedro Pires e dos pais uma soma de aproximadamente 80 mil cruzeiros — a moeda brasileira já não era mais contos de réis, como em 1937.

Segundo Benedito, na noite em que desapareceu, ele foi “para a casa de uma mulher meretriz”, e quando retornava para a residência de Joaquim Naves Rosa, “onde pernoitaria”, foi atacado por três indivíduos, que levaram todo o dinheiro dele, deixando-o apenas com 200 cruzeiros. “Desnorteado em vista das dívidas que contraíra para comprar o arroz”, ele resolveu “sumir no mundo”, e ainda naquela madrugada pegou um trem para Goiás.

Nessa fuga, ele afirma que procurou se esconder “o mais possível, pois não queria ser descoberto, visto como se sentia responsável pelo dinheiro de que fora furtado e que não possuía para pagar os seus credores”. Em suas andanças, esteve em Goiás, Mato Grosso e Bolívia. Já há alguns anos, morava na cidade goiana de Jataí, “onde comprou uma casa que hoje vale 90 mil cruzeiros.”

“(...) não ficou sabendo que por sua causa pessoas foram condenadas como autoras de sua morte; que agora, resolveu regressar para pagar os seus credores (...), dando-lhes a casa que possui em Jataí; que somente à sua chegada, antes de ontem, em Nova Ponte, ficou sabedor que atribuíram aos irmãos Sebastião José Naves e Joaquim Naves a autoria de sua morte sendo por isso ditos cidadãos condenados pela Justiça Pública.”

Depoimento de Benedito Pereira Caetano, em 25 de julho de 1952

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Plataforma embarque de passageiros, de onde Benedito partiu, em novembro de 1937
CRÉDITO Gláucia Rodrigues

Tremendo erro

Testemunhas estão na Delegacia para comprovar a identidade de Benedito. Entre elas, Sebastião Naves, agora com 47 anos. Ele conta “que ontem teve notícia de que a sua ‘vítima’ fora vista em Nova Ponte e comunicou o fato à autoridade”. Acrescenta que, assim, estava provada a sua inocência “e evidenciado o tremendo erro judiciário de que o declarante e seu irmão foram vítimas (...)”.

O delegado Georgino Jorge de Souza pede ao Judiciário a prisão preventiva do morto-vivo, ao argumento, entre outros, de que, “se em liberdade, Benedito Pereira Caetano desaparecerá sem deixar rastro e não se apurará jamais o muito que tem a contar à Justiça desta comarca, com quem necessita ajustar graves contas.” Sua prisão também se justificava pela ira do povo, que ameaçava linchá-lo.

No mesmo dia, o juiz municipal Pedro Sanches Louzada decreta a custódia preventiva de Benedito para possibilitar a identificação dele, até então tido como morto, e para resguardar sua integridade física. Em meio à fundamentação da prisão, destacou o fato de que o primo dos Naves teria cometido o delito de “apropriação indébita de apreciáveis importâncias de dinheiro” quando desapareceu. O magistrado abre vistas para o Ministério Público se manifestar.

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Ao reaparecer, Benedito é preso, mas depois se reconhece que não havia crime contra ele.
CRÉDITO Reprodução de documento

Perdão e prescrição

Em 1º de agosto, um advogado contratado pela família de Benedito, Aldo de Souza, entra com um pedido de revogação da prisão. “A apropriação indébita estaria prescrita pelo tempo e perdoada por aquelas supostas vítimas, outros que são senão pais, cunhados e irmãos do indiciado”, pontua, juntando declarações dos familiares indicando que Benedito tomara a quantia deles emprestada, não tendo furtado o montante.

Outro elemento é trazido aos autos pelo advogado: a “dolorosa tortura moral” que estaria sofrendo Benedito: “A toda hora defronta-se o ‘morto-vivo’ com aqueles que a Justiça puniu indevidamente, satisfazendo-se a vontade daqueles que exploram a curiosidade pública (...). Há razões de ordem jurídica e moral para fazer cessar a tortura que sofre Benedito Pereira Caetano na cadeia local e que já o levou à tentativa de suicídio”.

O jornal “A Noite”, na edição de 29 de julho, narrou como Benedito tentara se matar: “Tomando de um prego de 10 centímetros, e com o auxílio de uma lata de azeite, procurou perfurar o crânio, dando sucessivas pancadas no prego que estava colocado sobre o seu crânio, de ponta”. Ele é impedido pelos outros presos. “Todo ensanguentado, Benedito Caetano foi socorrido pelo delegado de Araguari e, em seguida, recebeu curativos médicos de que carecia.”

Em 4 de agosto, o promotor João Nascimento Godoy dá um parecer se manifestando contrário à prisão, e o juiz Louzada determina que Benedito “seja restituído à liberdade”, após cerca de 10 dias de prisão.

“Chamados a opinar, entendemos que um erro não justifica outro. Se os irmãos Naves foram vítimas de um inqualificável erro judiciário, não se deve estender esse erro, de consequências desastrosas, à pessoa de Benedito Pereira Caetano (...) A onda de simpatia que acaba de cercar o caso dos irmãos Naves, pela alegria natural de todos que tiveram conhecimento do clamoroso erro de que foram vítimas, não deve afogar Benedito Pereira Caetano (...) Ora, não existem motivos, no presente inquérito, para a custódia de Benedito Pereira Caetano, que por sua vez está sendo vítima do sensacionalismo que se teceu em torno do seu aparecimento.”

Parecer do promotor João Nascimento Godoy, em 4 de agosto de 1952.

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Benedito ferido, depois de tentar se matar; jornal noticia a tentativa de suicídio
CRÉDITO DA FOTO: Reprodução de documento
CRÉDITO DOS RECORTES DE JORNAIS: Reprodução “A Noite”

Sina do homem

Para que não pairassem dúvidas de que o homem que reapareceu em Araguari, em julho de 1952, era o mesmo desaparecido em 1937, será exigida, pela Justiça, prova legal da identidade de Benedito Pereira Caetano, pelos meios que fossem necessários: testemunhas, com a citação e a presença do Ministério Público; serviço de identificação do Estado; apresentação de outros elementos probatórios, como certidões e atestados.

João Pereira da Silva, pai de Benedito, é uma das testemunhas. Ele afirma que, quando Benedito reapareceu, contou que em Goiás se identificava com outros nomes e que havia se casado e tido dois filhos. Afirmou que achava que seu filho estava morto, “tanto que havia feito o seu inventário”, e que, quando perguntou a Benedito porque ele havia sumido, ouviu como resposta que “isso era a sina do homem.”

Também são confrontados com fotos, e identificam Benedito, a mãe dele, Tereza Cândida da Conceição; Floriza Martins da Silva, identificada como “meretriz”; a prima Albertina Batista Pereira; o jornalista Felício De Lucia Neto; o tipógrafo Antônio Pires; o industrial Custodio Guimarães; e Zulmira Teodora Pereira, prima que figura em uma das fotografias que são apresentadas na Delegacia, aos 13 anos de idade, ao lado de Benedito, em 1937.

Benedito e a prima Zulmira Teodora Pereira, em 1937. Ano em que ele desapareceu
CRÉDITO Reprodução do documentos

Versão de Benedito

Meses depois de ter aparecido em Araguari, a pedido da Justiça, Benedito será ouvido na Delegacia Especial de Polícia de Jataí, em Goiás, onde voltara a viver. Era 7 de março de 1953. Declara-se comerciante e mais uma vez narra sua versão sobre o que teria acontecido na noite em que desapareceu. Conta sobre como lhe roubaram os cerca de 90 contos de réis, em 1937, e os acontecimentos que se seguiram a isso.

"(...) tomou o trem para Anápolis, depois para a atual Itumbiara; que daí seguiu para uma fazenda, onde trabalhou para ganhar dinheiro, após o que seguiu para Mato Grosso, tendo ido até a Bolívia, trabalhando em diversos tipos de serviços, para mais tarde se dedicar ao comércio de cereais, que exerce até hoje; que na Bolívia trabalhou na construção de estrada de ferro, tirando dormente nas matas. (...) que percorreu todo o estado do Mato Grosso, inclusive ter entrado no vizinho país Bolívia, desorientado da perda do dinheiro e do muito que devia a seu pai (...)"

Depoimento de Benedito Pereira Caetano em Jataí, em 7 de março de 1953

Em um segundo depoimento, também tomado em Jataí, já em 10 de março, ele repete informações já prestadas, explicando que, vivendo em Mato Grosso e Goiás, ele havia passado a se chamar "José Alves Gomes" e depois "José Goiano", "em vista de vender fumo goiano", e que com esse nome "se casou com Genelizia Sodré, em Poxoréu, Mato Grosso, tendo desta união dois filhos (...)."

A certidão de casamento revela que a união foi realizada em 15 de abril de 1944. Além do nome falso, Benedito também mentiu sobre o nome dos pais e a naturalidade, afirmando ter nascido em Anápolis. Genelizia, natural de Macaúbas (BA), tinha 20 anos; o marido, 34.

Testemunhas são chamadas para reconhecer Beneditro; em 1944, ele havia se casado usando nome falso
CRÉDITO Reprodução de documentos

Carreira militar

O tenente Francisco Vieira dos Santos não estava mais vivo quando Benedito reapareceu. Em 25 de maio de 1948, o militar havia morrido, aos 63 anos, tendo sido sepultado no Cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte. Sobre ele, o coronel Nélio Cerqueira Gonçalves, comandante do Comando-Geral da Polícia Militar de Minas Gerais, diria, em 21 de janeiro de 1953, em resposta a um ofício:

“Quanto às informações sobre a carreira militar do Tenente Francisco Vieira dos Santos, esclareço o seguinte: verificou praça nesta corporação a 18 de novembro de 1908; foi promovido a 2ª tenente em 1931 e a 1º tenente em 1933. Foi reformado em 1938 e o seu falecimento data de 25 de maio de 1948. Revelou-se um oficial dedicado às funções e exemplar chefe de família”.

Coronel Nélio Cerqueira Gonçalves, comandante do Comando-Geral da Polícia Militar de Minas Gerais

No mesmo documento, o comandante-geral informa que “a expulsão dos ex-componentes do destacamento policial de Araguari, envolvidos nos acontecimentos relacionados com o caso dos irmãos Naves, não se prende a esse fato”. O militar explica então que dois dos soldados já haviam sido expulsos, em 5 de maio de 1938, “porque revelaram péssimas qualidades morais que os incompatibilizaram com a farda honrada desta Corporação.”

A esposa do tenente, Cornélia Alvarenga Fontes, ainda era viva quando as atrocidades cometidas pelo marido vêm à tona. Nos primeiros dias de agosto de 1952, no ápice das revelações, quando periódicos de todo o país davam notícia do reaparecimento de Benedito e narravam os trágicos acontecimentos envolvendo a família Naves, ela falece. O jornal “O Repórter” de Uberlândia, de 1º de setembro de 1952, trouxe a informação:

“De Belo Horizonte, noticia-se que em dias da semana atrasada, no momento em que lia as inenarráveis arbitrariedades praticadas pela insânia do tenente Vieira no caso do ‘morto vivo’, sua esposa, extremamente chocada, prostrou-se morta. O médico legista imediatamente chamado para apurar os motivos do falecimento da referida senhora deu como causa mortis, como causa do colapso, aquilo que em sua linguagem profissional se deve chamar ‘traumatismo moral’”.

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Lápide do Tenente Vieira, no Cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte; notícia relaciona a morte da esposa dele aos acontecimentos em Araguari; matéria lista as torturas
sofridas pelos irmãos Naves
CRÉDITO DA LÁPIDE: Gláucia Rodrigues
CRÉDIDO RECORTE DE JORNAL BRANCO Reprodução “O Repórter”
CRÉDITO RECORTE DE JORNAL amarelado: Reprodução “Correio do Sul”

Repercussão nacional

O Brasil conheceria, assim, o caso dos irmãos Naves, que ganharia repercussão nacional pela violência policial, que forçou dois inocentes a confissões de um crime que não havia ocorrido, e pelo erro judiciário. Uma foto de Sebastião, de boca aberta, mostrando que teve os dentes arrancados nas torturas, irá ilustrar muitas das matérias e será incluída no processo, no pedido de revisão criminal.

Sob o título “Um tenente da Força Pública, mais cruel que um chacal, mais infame que um monstro”, o jornal “Correio do Sul”, em 7 de setembro de 1952, listou “um resumo” dos suplícios a que foram submetidos Sebastião, Joaquim e Ana Rosa.


1. "ARRANCAMENTO DOS DENTES A ALICATE, GOLPES DE SABRE, CORONHADAS DE REVÓLVER E COICE DE FUZIL.
2. ARRANCAMENTO DAS UNHAS A ALICATES, APÓS A APLICAÇÃO DE ALFINETES;
3. SENTAR-SE DURANTE DIAS EM CADEIRAS DE PREGOS PONTIAGUDOS;
4. "DORMIR" AMARRADOS PELO PESCOÇO;
5. AMARRADOS DE CABEÇA PARA BAIXO NO PORÃO DA CADEIA;
6. TIVERAM O CORPO "COSTURADO" A PONTA DE SABRE;
7. TIVERAM DE SURRAR A POBRE MÃE DESPIDA;
8. TIVERAM DE ASSISTIR À VIOLENTAÇÃO DA VELHINHA PELOS SOLDADOS DO DESTACAMENTO;
9. TIVERAM O CORPO AMARRADO, PELOS PUNHOS E TORNOZELOS, A CRUZES DE MADEIRA FINA, SOBRE AS QUAIS SAPATEAVAM OS SOLDADOS;
10. TIVERAM O CORPO UNTADO DE MEL E FORAM LANÇADOS ÀS ABELHAS E AOS MARIMBONDOS;
11. FORAM MERGULHADOS NO RIO DAS VELHAS ATÉ PERDEREM OS SENTIDOS;
12. OBRIGADOS A INGERIR VIDRO MOÍDO COM ÁGUA E URINA COM FUMO E SAL AMARGO;
13. FICARAM SEM ALIMENTAÇÃO POR OITO DIAS, E SEM ÁGUA POR QUATRO DIAS;
14. DISPAROS DE ARMA DE FOGO, À QUEIMA ROUPA (UM DOS TIROS ACERTOU JOAQUIM NAS NÁDEGAS).

E OUTRAS TORTURAS"

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A chamada “vila dos pobres” e o Asilo São Vicente de Paulo, onde Joaquim Naves morreu, aos 39 anos
CRÉDITO DAS FOTOS EM PRETO E BRANCO Arquivo Histórico e Museu Dr. Calil Porto (Araguari-MG)
CRÉDITO FOTO COLORIDA: Gláucia Rodrigues

Condição de miserabilidade

Rebaixado à condição de miserabilidade, Joaquim viveu seus últimos dias na chamada Vila dos Pobres, intitulada posteriormente Asilo São Vicente de Paulo. Rosângela Duarte, assistente social na Sociedade São Vicente de Paulo de Araguari, explica que o local começou a ser construído em 1936 e "acolhia famílias e pessoas necessitadas, com a espiritualidade dos Vicentinos".

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Joaquim Naves está enterrado no Cemitério Bom Jesus, em Araguari; no local, também está sepultada a esposa dele, Antônia Rita
CRÉDITO Gláucia Rodrigues

Processo de apagamento

“Quando Joaquim e Sebastião são presos, suas esposas não conseguiam nem lavar roupa pra fora, como costumamos dizer. Elas eram lavadeiras, e ninguém contratava os serviços delas; tornaram-se pessoas malquistas pela sociedade, observa Henrique Macedo.

Hoje juiz do trabalho, Henrique era estudante de Direito quando ele e o também araguarino Thiago Scalia resolveram montar o espetáculo “O Caso dos Irmãos Naves”, encenado pelo grupo de teatro EmCena. Roteirista e ator da peça — ele interpreta Sebastião —, ele conta que, na infância e na adolescência, ouvia falar do caso, “mas sem grandes detalhes”. “A história era sempre cercada de mistério, porque é muito violenta”, diz.

Nas pesquisas para produzir a peça, que consumiram mais de um ano, Henrique e Thiago perceberam que o caso passava por “um processo de apagamento”, sendo desconhecido pelas novas gerações. “Sentimos então desejo de contar essa história, que faz parte da nossa comunidade, para que ela não fosse esquecida e não se repetisse”, declara Henrique.

Henrique Macedo e Thiago Scalia no local que foi o
salão do júri do Fórum de Araguari
CRÉDITO Gláucia Rodrigues
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Amor de mãe

O ator e diretor do espetáculo, Thiago Scalia, afirma que aprende muito sobre o caso, a cada nova apresentação. “A princípio, esse era para mim um caso de erro do Judiciário e de muita brutalidade. Hoje, eu entendo que essa é uma história de perdão”, afirma. Esse entendimento veio a partir da representação da cena em que Sebastião reencontra Benedito, 15 anos depois, e o abraça.

“A plateia se manifesta muito timidamente nas cenas de violência, mas, no reencontro entre os primos, a reação é de êxtase. Mas as pessoas sempre reagem fazendo ‘ahhhh’, porque estavam com sede de vingança”, observa. Ele lembra que é preciso entender o pensamento da gente comum, simples, que vivia em Araguari, nas décadas passadas. “Sebastião não queria vingança nem justiça; ele queria defender sua honra”, frisa.

Thiago afirma que descobriu ainda que o caso dos irmãos Naves é também, e sobretudo, a história de Ana Rosa Naves. “É uma história de amor de mãe. Dona Ana luta pela inocência dos filhos; é ela quem procura o advogado de defesa, que também achava que os irmãos Naves eram culpados. Essa mãe foi atrás do advogado, logo depois de ter sido abusada na frente dos filhos, e pede a ele: ‘me ajude’”, ressalta.

Henrique acrescenta que Ana Rosa, apesar de torturada física e psicologicamente, luta para obter ajuda para os filhos, defendendo a honra deles, sem jamais duvidar de que eles eram inocentes. “E ela será a última a morrer; tanto Sebastião quanto Joaquim morrem antes dela. Em nossa sociedade, a visão das mulheres é muitas vezes silenciada e preterida pela visão dos homens a respeito da história. Então, em nosso espetáculo, quisemos dar voz a essa mulher, às suas dores e ao que ela passou”, acrescenta.

O ponto de vista das esposas dos irmãos, que se viram sem seus companheiros e sem trabalho, precisando criar os filhos, sob o estigma de mulheres de criminosos, também é apresentado ao público.

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Ana Rosa, em 1958; em pé, a nora Maria Joaquina, mãe de Nilson José Rosa
CRÉDITO Arquivo Histórico e Museu Dr. Calil Porto (Araguari-MG)
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Salvina Olina de Jesus, em 1969, e Antônia Rita de Jesus, em 1955
CRÉDITO Eugênio H. Silva - D.A Press

“A bênção, meu pai”

Em quase 20 anos apresentando a peça, Thiago Scalia foi marcado pelo final de uma apresentação, há alguns anos. A encenação era na Casa de Cultura Abdala Mameri, que ocupa hoje o edifício que foi o antigo fórum e a cadeia pública de Araguari; o teatro, o Salão do Júri onde Sebastião e Joaquim foram julgados por duas vezes e inocentados. É ali que eles se apresentam, quando o espetáculo está em cartaz na cidade.

“Sempre que acaba a peça, algumas pessoas vêm até nós, conversam, pedem fotos. O teatro foi se esvaziando, e uma senhora ficou e se aproximou de mim. Ela me agradeceu por contar a história de verdade e também pelos momentos de leveza, porque fizemos cenas lúdicas, falando da Dona Ana, da questão da religiosidade, da vida de uma família interiorana de Minas Gerais”, lembra-se.

Tão logo ela se aproximara dele, a primeira coisa que a mulher havia dito a Thiago, que interpreta Joaquim na peça, havia sido: “A bênção, meu pai”. O diretor percebeu logo de quem se tratava, e eles se abraçaram. “Ela era filha do meu personagem”, revela. No pedido de bênção ao ator, uma tentativa de recuperar um gesto que lhe foi arrancado quando o pai dela, aos 25 anos, foi acusado de um crime que não cometeu.

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Joaquim Naves Rosa morreu em 1949, antes que sua inocência fosse proclamada
CRÉDITO Gláucia Rodrigues