Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais

Dia do Voluntariado: doar um pouco de tempo é gesto que pode transformar vidas

Data lembrada em 28/8 reforça vocação do Judiciário para garantir direitos a pessoas em situação de vulnerabilidade


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Integrantes do Médicos do Mundo BH e do Insanos Moto Clube realizaram evento no Viaduto Santa Tereza, em Belo Horizonte (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)
“Encontrei uma criança que não conhecia. Ela me abraçou e não queria soltar, e eu não queria ir embora. Foi aí que eu entendi que [voluntariado] fazia parte do meu propósito.” 

A frase é da médica Isabella Resck, responsável pela implantação da ONG Médicos do Mundo em Belo Horizonte. Para ela, é preciso “enxergar a demanda da pessoa muito além da doença, da medicina. E se doar para estar presente”. 

Desde 2021, o grupo de profissionais de saúde oferece atendimento gratuito, em mutirões, para a população em geral. Em especial, são atendidas pessoas em situação de rua. O grupo reúne médicos, enfermeiros, psicólogos, farmacêuticos, dentistas e veterinários, entre outros, que dedicam um pouco do tempo livre para ajudar quem tem uma necessidade. 

O último encontro, no domingo (23/8), ocorreu debaixo do Viaduto Santa Tereza, no Centro de Belo Horizonte. 

A atuação do grupo alude ao Dia Nacional do Voluntariado, lembrado em 28/8. Não se trata apenas da comemoração de uma data, mas da certeza de que pequenos gestos humanitários podem fazer uma grande diferença. 

Atual coordenador da iniciativa, o médico Thiago Coelho, de 30 anos, conheceu esse trabalho voluntário há cinco. 

“Comecei como voluntário numa missão no Norte de Minas. Fui participando, me apaixonando.”

Hoje o grupo possui 108 médicos registrados e 1.600 voluntários no País, uma vez que a ONG se tornou multiprofissional. Somente na área médica, atuam 750 estudantes de faculdades públicas e privadas. Em cinco anos, foram cerca de 10 mil atendimentos. 
 

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Coordenador do Médicos do Mundo BH, Thiago Coelho ressalta que a atuação como voluntário o conecta com realidades do Brasil (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

O médico ressalta o sentimento de pertencimento despertado pelo trabalho voluntário: “Você se conecta com a realidade do Brasil, principalmente para nós, que temos muitos privilégios, inclusive de ter entrado em uma universidade. São instâncias diferentes, nós vivemos em bolhas. É você abrir a sua humanidade para o outro, abrir o seu tempo, seu domingo, seu descanso, e mesmo assim não se sentir cansado.”

Na ação no Viaduto Santa Tereza, além das consultas de saúde, os pacientes receberam lanche e doações de roupas. 

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A médica Isabella Resck, que implantou o Médicos do Mundo em Belo Horizonte, afirma que doar seu tempo é estar presente (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Reconhecimento

O trabalho dos voluntários é reconhecido por quem buscou atendimento debaixo do viaduto. Márcio Aurélio Santos Leal, de 40 anos, morador da região Leste de BH, fez tratamento dentário com os voluntários. 

É só agradecer, que continuem dando essa força pra gente. Acho muito bacana o fato de saírem no domingo, quando poderiam estar em casa fazendo churrasco, e disponibilizarem esse tempo pra gente.”

Outra paciente que procurou tratamento dentário foi Daiane Pereira, de 58 anos, moradora da região Nordeste de Belo Horizonte.

“Aqui é muito bom. Me ajudaram com o tratamento, ganhei roupa, calçado. O trabalho deles é muito bom.”

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Daiane Pereira, de 58 anos, participou da iniciativa dos profissionais de saúde e agradeceu pelo tratamento dentário viabilizado pelo grupo (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Núcleo de Voluntariado

Há dez anos, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) dedica um olhar especial para o trabalho voluntário. Em agosto de 2016, foi instituído o Núcleo de Voluntariado. A superintendente do NV, desembargadora Maria Luíza de Marilac, explica que o Núcleo teve início como estrutura para incentivar a prática voluntária e se transformou em importante instrumento de aproximação entre o Judiciário e a sociedade.

“Ao atuar de forma voluntária, cada pessoa se torna agente transformador da realidade à sua volta, multiplicando gestos de empatia que fortalecem o tecido social.”

A desembargadora, que também está à frente da Coordenadoria do Voluntariado Transformador e da Política Judicial de Atenção a Pessoas em Situação de Vulnerabilidade Social Extrema (Covve) e coordena o Comitê Local da Política de Atenção a Pessoas em Situação de Rua do Poder Judiciário (Comitê PopRuaJud Minas Gerais), faz um balanço do Núcleo ao longo de dez anos. 

“Sua trajetória revela uma evolução da solidariedade pontual para a articulação institucional, da doação para o acesso a direitos, da ação episódica para a política pública e da atuação intramuros para a presença efetiva do Judiciário nos territórios e junto às populações em situação de vulnerabilidade.”
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O Núcleo de Voluntariado realiza ações como o projeto Rua de Direitos, que leva cidadania a pessoas em situação de vulnerabilidade (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

A superintendente destaca o engajamento dos voluntários do Tribunal. 

“Antes de tudo, são pessoas que acreditam que podem contribuir para transformar uma realidade. No TJMG, são magistrados, servidores, colaboradores e, dentro das possibilidades previstas, pessoas da sociedade que dedicam tempo, conhecimento e trabalho de forma não remunerada. Cidadania não se resume ao exercício formal de direitos, ela se constrói também no cotidiano, nas pequenas redes de solidariedade que aproximam instituições e pessoas, que rompem barreiras de exclusão e que reafirmam a igual dignidade de todos os seres humanos. Ao atuar de forma voluntária, cada pessoa se torna agente transformador da realidade à sua volta, multiplicando gestos de empatia que fortalecem o tecido social.”

Cultura de solidariedade

Integrante do Núcleo de Voluntariado do TJMG, o juiz Sérgio Henrique Cordeiro Caldas Fernandes ressalta que o trabalho voluntário impacta diretamente quem está envolvido. 

“Quando saímos dos fóruns e prédios do Tribunal e vamos para a rua, nós aprendemos muito e nos tornamos profissionais e pessoas melhores.”

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A atuação do Núcleo de Voluntariado foi ampliada ao longo de dez anos e se aproximou ainda mais da população, garantindo dignidade às pessoas (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Para o magistrado, o Núcleo de Voluntariado contribui para aproximar o Judiciário de quem enfrenta barreiras para acessar direitos. 

“Mais do que prestar assistência, o Núcleo ajuda a construir uma cultura institucional de solidariedade, de participação e de compromisso público. É uma forma de reafirmar que um Judiciário socialmente responsável é aquele que compreende a realidade à sua volta e se coloca a serviço da cidadania. Conhecemos melhor as pessoas, suas dificuldades e necessidades. Isso ajuda o próprio Judiciário a pensar em formas mais humanas e adequadas de atuar, ao mesmo tempo que promove diálogo mais criativo e horizontalizado dentro do próprio TJMG.”

Proximidade com o cidadão

A juíza Flavia de Vasconcellos, da Comarca de Juiz de Fora, destaca a participação no Núcleo de Voluntariado como uma experiência enriquecedora.

“A magistratura nos permite aplicar a lei, mas o voluntariado nos mostra que a Justiça, também, se realiza no gesto solidário e na proximidade com aqueles que mais precisam.”

A juíza destaca que ações voltadas para pessoas em situação de rua, “oferecendo alimentação, orientação jurídica ou encaminhamento para serviços de saúde, reafirmam que dignidade e cidadania não podem ser negadas a ninguém. A Justiça deve ser humana e inclusiva”.

A magistrada lembrou também o apoio dado pelo Núcleo às vítimas das chuvas na Zona da Mata no início do ano. “Oferecer acolhimento, doações e encaminhamentos mostra que a Justiça se manifesta amplamente na presença concreta junto às comunidades atingidas.”

Outra iniciativa em Juiz Fora envolveu estudantes em mutirões e projetos sociais. “Isso desperta na juventude o senso de responsabilidade cidadã. Ver jovens engajados, dedicando tempo e energia para ajudar, é um sinal de que estamos semeando valores que fortalecerão a sociedade”, destaca a juíza. 

“O Núcleo de Voluntariado do TJMG é um espaço onde a Justiça se faz viva, não apenas nos tribunais, mas também nas ruas, nos abrigos e nas escolas, transformando vidas e construindo cidadania.”

Conciliação

Em uma iniciativa da 3ª Vice-Presidência do TJMG, desembargadores aposentados atuam como mediadores e conciliadores, ajudando pessoas que recorrem à Justiça para resolver pendências judiciais.

Um deles é o desembargador Paulo Mendes Álvares, que se dedica à prática do voluntariado depois de se aposentar. Atualmente, o magistrado dedica seu tempo a ajudar a população que procura o Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania de 2º Grau (Cejusc de 2º Grau).

“Normalmente, esclareço para os advogados e para as partes sobre as vantagens de fazer um acordo. Dou exemplos e acabo convencendo as partes a uma composição, que resolvem amigavelmente.” 

O tempo dedicado ao trabalho voluntário o conforta. 

“Eu continuo aqui trabalhando e, enquanto tiver saúde e condições, eu venho.”

Cozinheiras com Amor

O projeto Cozinheiras com Amor atua há dez anos na distribuição de marmitas, cestas básicas, roupas, cobertores e produtos de higiene para pessoas em situação de vulnerabilidade.

Segundo a coordenadora do grupo, Hercília Alves, “doar tempo é uma forma de doar amor, compromisso e esperança. Eu acredito que ninguém transforma uma realidade sozinho. Quando a gente coloca o nosso tempo à disposição de outra pessoa, estamos dizendo que a vida dela importa. E eu também aprendo muito nesse processo. O voluntariado não é apenas dar, é construir junto”.

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Há dez anos, o projeto Cozinheiras com Amor leva comida e solidariedade a quem precisa (Crédito: Divulgação / Cozinheiras com Amor)

O projeto atua em BH, Contagem e Ribeirão das Neves e conta com uma rede de solidariedade para doações. 

“Começamos ajudando pessoas que enfrentavam fome e situação de rua. Com o tempo, percebemos que a necessidade era muito maior. Era preciso levar alimento, acolhimento, informação e lutar pelo acesso aos seus direitos.”

Moto Clube

O evento do Médicos no Mundo no Viaduto Santa Tereza também contou com voluntários do Insanos Moto Clube, que ajudaram na organização do local. Segundo o diretor social regional, Cleverton Ornellas, o grupo participa de ações como arrecadação e entrega de cestas básicas e visita crianças em instituições. 

“Fazemos questão de estar aqui. Um dos nossos lemas do moto clube é 'fazer o bem sem olhar a quem'. Para mim é gratidão, porque tudo que a gente faz, em prol da sociedade, retorna pra gente.”

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O diretor social regional do Insanos Moto Clube, Cleverton Ornellas, afirma que o grupo busca transformar solidariedade em ação concreta (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

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