Experiências, carreira, expectativas, conselhos, fatos marcantes. No mês que celebra o Dia Internacional da Mulher (8/3), vozes de desembargadoras, juízas, servidoras e terceirizadas que atuam no Poder Judiciário de Minas Gerais refletem o som de muitas mulheres. Tanto as mais experientes quanto as que estão no início da carreira abrem a bagagem das lembranças e compartilham um pouco de suas trajetórias.
Decana no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), a desembargadora Maria Beatriz Madureira Pinheiro Costa Caires, quando tomou posse no cargo em 2004, era a mais jovem entre as desembargadoras do País. Atualmente, no TJMG, preside a 2ª Câmara Criminal, o Núcleo de Justiça 4.0 – Criminal Especializado e o 1º Grupo de Câmaras Criminais:
“O tempo tem uma forma silenciosa de revelar o sentido das trajetórias. No serviço público, ele nos permite perceber que cada geração ajuda a abrir caminhos para a que virá depois. Ao olhar para a minha própria caminhada, vejo não apenas a história de uma carreira, mas também o reflexo de um período em que as mulheres foram, pouco a pouco, ampliando sua presença e sua voz nas instituições.”
Uma das juízas empossadas mais recentemente no Judiciário mineiro é Gabriela Furtado Arja de Oliveira Gomes, da Vara Única da Comarca de Capinópolis, no Triângulo Mineiro.
Ela ingressou no cargo com outras 27 mulheres e, assim como a desembargadora, fala sobre o caminho percorrido e sobre a importância da solidariedade e do apoio mútuo:
“Quando uma mulher ascende, ela deve se esforçar para facilitar o caminho das outras que vêm logo atrás. No ambiente corporativo, nas instituições públicas ou na vida pessoal, sejamos a rede de apoio umas das outras. Evitemos a armadilha da rivalidade que nos é imposta culturalmente. Celebrar as conquistas de outras mulheres e estender a mão nos momentos de dificuldade cria uma corrente de fortalecimento coletivo, que nos torna invulneráveis às tentativas externas de diminuição ou de silenciamento.”
Gabriela Furtado transitou de servidora para a magistratura após 18 anos de serviço público:
“Foi exatamente essa vivência diária, enfrentando os desafios estruturais e presenciando o poder transformador de uma decisão judicial bem fundamentada e justa, que despertou em mim o desejo irremediável de assumir a responsabilidade de julgar. O anseio de entregar uma justiça mais humana, eficiente e próxima da realidade social culminou na minha posse como juíza em 8/4 de 2025.”
Mudanças
Há 50 anos no serviço público e uma das servidoras efetivas mais antigas do TJMG, a gerente de Secretaria da Vara de Família e Sucessões da Comarca de Varginha, Maria Aparecida Caldonazzo de Almeida comenta outro reflexo da sociedade em crescimento: a inovação tecnológica.
Quando ingressou no Judiciário, na década de 1990, como ela lembra, as audiências eram registradas à mão: “Hoje, já estamos na segunda geração do processo eletrônico. Eu não acreditava que iria presenciar essa mudança.”
Ela, que ingressou em 1976 como escrevente juramentada, época em que as atividades judiciais e extrajudiciais eram conjugadas, optou pela área judicial na década de 1990, após aprovação em concurso público, que então passou a ser obrigatório: “E nunca mais saí do fórum.”
A juíza com mais tempo de atuação na magistratura mineira é a titular da 5ª Vara Cível da Comarca de Poços de Caldas, no Sul do Estado, Tânia Marina de Azevedo Grandal Coelho.
Sobre seu processo de trabalho ao longo do tempo, ela conta que usava máquina de escrever própria e, hoje, elogia o suporte de estrutura e materiais e, acima de tudo, o respaldo que as mulheres, incluindo as magistradas, passaram a receber.
Ela cita projetos que ajudam no enfrentamento da violência doméstica e do assédio e medidas de igualdade de gênero, como a Resolução nº 525/2023, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
A norma determina que, nos tribunais em que as desembargadoras representem menos de 40% do total de magistrados, as promoções por merecimento deverão alternar entre listas mistas e listas exclusivas de candidatas mulheres.
Ainda assim, a juíza Tânia Grandal Coelho diz que opta por permanecer na 1ª Instância:
“Estou realizada na carreira e acho que sou mais útil ao ter esse contato direto com as pessoas. Às vezes, elas só precisam ser ouvidas e é possível chegar a um acordo em que as partes se sentem mais satisfeitas. Sou útil ao meu semelhante e à sociedade.”
A colaboradora com menos tempo de atuação no TJMG é Lívia Vince, de 22 anos, estudante de Direito. Contratada em 3/3 deste ano, ela trabalha no Serviço de Reconhecimento de Paternidade da Comarca de Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Assim como a juíza, diz gostar de trabalhar diretamente com o jurisdicionado:
“Tenho tido ótimas experiências e gosto muito do setor, principalmente porque envolve o atendimento direto ao público. Ter esse contato com as pessoas, ouvir suas histórias e poder contribuir, de alguma forma, para garantir direitos tão importantes é algo que me motiva muito.”
Após iniciar o trabalho na Corte mineira como estagiária, ela afirma que a experiência foi importante por ajudar a entender, na prática, o impacto que o Direito pode ter na vida das pessoas.
Expectativas
Lívia Vince acredita que o Direito pode ser acessível, democrático e popular, chegando, de fato, até quem precisa:
“Para mim, o Direito não deve ser distante das pessoas, mas sim uma ferramenta de transformação e de garantia de dignidade. E a melhor forma para isso é aproximá-lo da realidade das pessoas.”
Quase com a mesma idade da colaboradora, a desembargadora Beatriz Pinheiro Caires tornou-se promotora de Justiça no Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) em abril de 1984, aos 23 anos.
Ela trazia consigo “o entusiasmo da juventude e a convicção de que servir à Justiça era uma missão que valia a pena”. Para a magistrada, quando se é jovem, raramente é possível antever com clareza o destino que a vida reserva a cada um:
“Eu não tinha um roteiro definido, mas tinha um propósito: exercer o Direito com seriedade e compromisso.”
Quem já sabia o seu propósito é a servidora recém-empossada no TJMG Rayssa Matos Dantas. Ela conta que sabia exatamente o caminho que seguiria desde os 12 anos de idade:
“Eu escolhi o Serviço Social com 12 anos e queria trabalhar exatamente aqui. Eu fiz o meu curso para trabalhar no Judiciário e fui preenchendo os requisitos necessários justamente para estar aqui, nesse lugar.”
Sua carreira na área teve início em fevereiro deste ano, na Comarca de Machado, no Sul do Estado.
Segundo Rayssa Matos Dantas, a motivação também teve origem em uma experiência pessoal: um tio foi assassinado por adolescentes autores de atos infracionais que já haviam sido internados. Isso despertou o desejo de trabalhar com acolhimento e tentar fazer algo diferente na vida de pessoas que passam por situações conturbadas.
A desembargadora Beatriz Pinheiro Caires lembra que direcionar os passos para o trabalho é importante:
“Se pudesse conversar, hoje, com a jovem juíza que fui, diria apenas que preservasse esse ideal de Justiça e a disposição para o trabalho.”
Ela ressalta que o tempo lhe trouxe desafios, responsabilidades maiores e decisões difíceis, mas também lhe mostrou que cada esforço encontra sentido quando guiado por valores firmes.
Fatos marcantes
Sobre decisões difíceis que proferiu na carreira, Beatriz Caires diz que, por lidar com a área criminal, já observou o pior lado do ser humano, citando um julgamento que a impactou:
“Foi um feminicídio. O assassinato de Lorenza pelo seu marido, promotor de Justiça.”
Em seu voto nesse processo, falou sobre o protocolo do CNJ para julgamentos com perspectiva de gênero.
A juíza Gabriela Furtado destaca que a “atuação no Sistema de Justiça fatalmente nos coloca diante de realidades sombrias, mas alguns casos possuem a força de nos marcar profundamente, exigindo uma reflexão muito mais ampla sobre as estruturas da nossa sociedade”.
Um desses fatos ocorreu na Comarca de Capinópolis, onde atua: “Deparei-me com um processo que retrata uma das faces mais silenciosas e cruéis da violência baseada no gênero: um feminicídio em que tanto o suposto agressor quanto a vítima eram pessoas idosas. Esse caso específico gerou um impacto imenso, pois quebra um paradigma social muito arraigado de que a violência letal contra a mulher está restrita a determinadas faixas etárias ou dinâmicas conjugais de casais mais jovens.”
Conselhos
Ao ser indagada sobre conselhos que daria às mulheres, a juíza Gabriela Furtado afirma:
“Nunca permitam que a sociedade delimite os espaços que vocês podem ou devem ocupar. Historicamente, nós fomos condicionadas a duvidar da nossa própria capacidade e a aceitar posições de retaguarda, especialmente em ambientes profissionais e esferas de decisão. Invistam na qualificação contínua. Ocupem os espaços de poder, assumam posições de liderança e façam com que as suas vozes sejam ouvidas, pois a diversidade de perspectivas femininas é fundamental para a construção de uma sociedade mais equilibrada, justa e democrática.”
Confiança também foi a sugestão oferecida pela desembargadora Beatriz Pinheiro Caires:
“Confiem em sua capacidade e não permitam que limites lhes sejam impostos por expectativas externas.”
Para ela, cada avanço foi fruto de dedicação, preparo e coragem:
“A presença feminina nas instituições fortalece a própria ideia de Justiça, porque amplia perspectivas, humaniza decisões e aproxima as instituições da sociedade. Quando uma mulher avança nas instituições, a própria Justiça avança com ela.”
A colaboradora mais antiga do TJMG, a copeira Maria Auxiliadora de Souza das Dores, também aproveitou para dar seu conselho:
“Somos capazes. Eu diria para não desistirem, permanecerem firmes.”
Ao recordar sua história, ela comenta: “Ninguém precisa sofrer com homem.”
Maria Auxiliadora das Dores iniciou o trabalho como faxineira e, hoje, diz estar orgulhosa de trabalhar como copeira e ver os filhos empregados.
Por sua vez, a juíza Tânia Grandal Coelho reforça a importância do respeito mútuo.
O conselho da colaboradora Lívia Vince é semelhante ao das magistradas para todas as mulheres:
“Meu conselho é singelo: estudem, trabalhem com dedicação, preservem seus valores e não desistam diante dos desafios. Persistir faz parte do caminho. Quando uma mulher conquista conhecimento e independência, ela transforma não só a própria história, mas também a sociedade ao seu redor.”
A busca por conhecimento também está presente no conselho da servidora Rayssa Matos Dantas:
“Acessar mais conhecimentos para se fortalecerem. É muito importante estudar para também cuidar dos filhos. Exercer a maternidade com intencionalidade.”
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