Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais

Painéis encerram encontros voltados à área Penal

III Enap e XIII Enep foram realizados pela Ejef


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Foram encerrados, nesta sexta-feira (10/4), o III Encontro Nacional de Alternativas Penais (Enap) e o XIII Encontro Nacional de Execução Penal (Enep), promovidos pela Escola Judicial Desembargador Edésio Fernandes (Ejef).

Os eventos reuniram magistrados e servidores de Tribunais de Justiça de todo o País nas dependências da Universidade Fumec.

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Encontros voltados à área Penal foram encerrados nesta sexta-feira (10/4) (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Nesta sexta, foi realizado o 2º dia do XIII Enep, com o objetivo de capacitar os participantes para que sejam capazes de identificar os principais aspectos criminológicos, normativos e institucionais da execução penal no Sistema de Justiça Criminal brasileiro, à luz do Plano Nacional Pena Justa, com foco na redução da reincidência, na prevenção de violações de direitos e no fortalecimento de uma atuação jurisdicional efetiva e humanizada.

Além de magistrados e servidores, também participaram auxiliares de Justiça, gestores, estagiários, assessores do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) e público externo.

Programação

Durante a manhã, o encontro contou com a realização de cinco painéis. Um deles contou com a palestra “Política Antimanicomial na Justiça do Maranhão”, proferida pelo desembargador convocado Fernando Mendonça, do Tribunal de Justiça do Maranhão (TJMA). Ele tratou de saúde mental e medidas de segurança.

Na apresentação, o magistrado citou diretrizes, prazos e responsabilidade para o cuidado de pessoas com transtorno mental no Sistema de Justiça, conectando Judiciário, Saúde e Sistema Prisional. 

O desembargador também citou aspectos a respeito das normativas existentes, mostrando o histórico do TJMA no enfrentamento ao manicomialismo judiciário e abordou uma mudança de paradigma, ou seja, evitar a internação, a não ser quando necessária, cuidando do paciente judiciário em liberdade. 

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O desembargador convocado Fernando Mendonça palestrou sobre “Política Antimanicomial na Justiça do Maranhão” (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Pena Justa

A juíza da Vara de Execuções Penais da Comarca de Ribeirão das Neves e coordenadora do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e Socioeducativo (GMF) do TJMG, Bárbara Isadora Santos Sebe Nardy, fez a abertura do painel “Pena justa”, com apresentação sobre a implementação do Plano Nacional Pena Justa no Estado, destacando alguns pontos relevantes:

"O nosso documento final, aqui de Minas, tem 520 páginas, com as metas e os indicadores que teremos que cumprir. Em nosso caso específico, foram identificados 12 problemas e 38 ações mitigadoras."

Segundo ela, é preciso fortalecer instrumentos fundamentais para o funcionamento do Pena Justa, como as Centrais de Monitoração Eletrônica e as Centrais de Penas Alternativas:

"Se o juiz não tiver confiança de que aquela medida vai ser cumprida, ele vai preferir a prisão. E o Pena Justa traz exatamente esse fortalecimento, para que a gente possa ter uma política criminal que não seja baseada apenas no encarceramento, mas sim em respostas que sejam mais adequadas a cada tipo de conflito."

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A juíza Barbara Nardy tratou de pontos da implementação do Plano Pena Justa em Minas Gerais (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Segundo a magistrada, é importante incluir os policiais penais como peças-chave na implementação do plano, destacando o cotidiano nas unidades prisionais e o impacto na saúde mental desses profissionais: “Eles estão ali na ponta, indo trabalhar todo dia no mesmo lugar.”

Reflexões críticas

Outro palestrante do painel “Pena justa” foi o defensor público José Adaumir Arruda, da Defensoria Pública do Estado do Pará (DPE), que apresentou algumas reflexões críticas, como ele mesmo definiu, sobre a implementação do plano:

“Não é uma crítica aos atores, é uma preocupação quanto à eficácia. O plano é metodologicamente estruturado, mas apresenta algumas dificuldades que já estão surgindo.”

Ele listou alguns pontos de alerta sobre o Pena Justa. Um deles, de acordo com o defensor público José Adaumir Arruda é “quem conhece o problema não é quem executa a solução”, referindo-se à atuação do Congresso Nacional.

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O defensor público José Adaumir Arruda falou sobre sua expectativas em relação ao Pena Justa (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

“Essa é a minha reflexão a respeito das minhas ponderações e reflexões críticas para o plano; uma nova racionalidade penal é necessária. Ela não pode tomar a prisão como pena por excelência; deve ser reconhecida como medida de ultima ratio (último recurso)”, afirmou o defensor público.

Execução Penal

Ainda como parte da programação, durante a tarde, foram realizados outros três painéis, que trataram de Execução Penal, disciplina e prevenção à tortura em evento jurídico.

As temáticas abordaram questões da Execução Penal, com foco em progressão de regime no cumprimento de penas; disciplina carcerária e sanções aplicadas no ambiente prisional; e mecanismos de controle para prevenção de abusos, com ênfase na proteção contra a tortura e na importância das inspeções judiciais.

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Na parte da tarde, foram realizados outros três painéis, que trataram de Execução Penal, disciplina e prevenção à tortura em evento jurídico (Crédito: Gláucia Rodrigues / TJMG)

Encerramento

A conferência de encerramento do III Enap e XIII Enep abordou o tema “Os Desafios Atuais dos Sistemas Penitenciários”. Ela foi proferida pelo presidente do Instituto Brasileiro de Execuções Penais (Ibep) e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Carlos Eduardo Adriano Japiassú.

A mesa da conferência foi presidida pelo presidente do Instituto de Ciências Penais de Minas Gerais (ICP-MG), desembargador do TJMG Henrique Abi-Ackel Torres.

Em sua apresentação, o professor Carlos Japiassú explicou que, de uma forma geral, os problemas penitenciários brasileiros são similares aos de outros países, inclusive os mais ricos:

“Os Estados Unidos conseguiram reduzir em 15 anos grande parte da população carcerária, passando de 2,6 milhões para 1,6 milhão. Na Rússia, de um milhão de presos para 480 mil.”

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Painel “Os Desafios Atuais dos Sistemas Penitenciários” com os presidentes do ICP-MG, desembargador do TJMG Henrique Abi-Ackel Torres (esq.), e do Ibep, professor Carlos Eduardo Adriano Japiassú (Crédito: Euler Junior / TJMG)

No Brasil, segundo ele, houve um crescimento entre 2013 e 2016, uma redução na pandemia, em 2020, e um novo crescimento, discreto, em 2023:

“Um dos maiores desafios é reduzir a superpopulação. O ambiente penitenciário já é muito pesado. Com uma superpopulação, o problema é ampliado. Pior ainda é o Estado criar regras a serem seguidas pelos condenados, sem conseguir, o próprio Estado, cumprir importantes regras pré-estabelecidas.”

O professor Carlos Japiassú destacou que “uma penitenciária superlotada e mal gerida viola a dignidade humana, não garante segurança dos detentos e propicia a ação do crime organizado”.

Confira outras imagens do evento no Flickr oficial do TJMG.