Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais

"Mulher" é tema da 18ª Semana da Poesia

Além de celebrar poesia, evento marcou o início dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher


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Os 96 textos publicados no livro da 18ª Semana da Poesia foram escritos por magistrados, servidores, colaboradores e estagiários do Judiciário mineiro (Crédito: Gláucia Rodrigues / TJMG)
“Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos.”

Os versos são do poeta mato-grossense Manoel de Barros (1916-2014) e ilustram muito bem a Semana da Poesia do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), criada em 2007. O berço das centenas de vozes anuais foi projetado pela Assessoria de Comunicação do Fórum Lafayette, que, no dia 19/11, celebrou a 18ª edição, em evento realizado no Auditório do Fórum Cível e Fazendário, na av. Raja Gabáglia.

O tema deste ano foi “mulher” e culminou com a publicação de uma obra contendo 96 textos escritos por magistrados, servidores da ativa e aposentados, colaboradores e estagiários do Judiciário mineiro, da Capital e do interior do Estado.

Estreia

“E Porque Sou Mulher!” foi o poema escrito pela assistente de apoio aos gestores Isabela Satto, da Comarca de Belo Horizonte, estreante na 18ª Semana da Poesia. Em trecho de sua obra, ela diz:

“Eu sou Isabela. Sou uma em todas. Sou todas em uma, Porque sou MULHER.”

Ela afirmou que escreveu o poema em 8/3 de 2018, quando tinha 19 anos e iniciava o curso de Direito na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Inspirada pelo momento político pelo qual o País passava e pela crescente visibilidade das pautas das minorias, especialmente das mulheres, relatou ter sentido, pela 1ª vez, o peso e o significado de ser mulher no mundo.

Segundo a assistente social Alessandra Costa Campos, da Comarca de Juiz de Fora, esse “peso” está expresso em seu poema “Mulher”:

“A mulher carrega um peso que não se vê, mas se sente. Nas palavras ditas com doçura e nas exigências permanentes.”
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A gerente da Contadoria da Comarca de Araxá, Idelma da Costa, lançou no evento o livro “Apagão. O passo para a superação” (Crédito: Gláucia Rodrigues / TJMG)

Esse peso também foi sentido por Idelma Borges da Costa, gerente da Contadoria da Comarca de Araxá, que lançou no evento o livro “Apagão; o passo para a superação”. De acordo com ela, a obra mostra as diversas fases de uma mulher independente que, ao chegar aos 40 anos se encontrou perdida, devido à sobrecarga de atribuições.

Recém-casada, iniciando na gerência e com um bebê recém-nascido, a servidora participou de um curso sobre gestão de processos e de pessoas e, na época, perguntou ao palestrantre como prevenir desafios. Ele respondeu que desafios “a gente enfrenta”.

Em seu poema “Mulher além dos holofotes”, Idelma Borges da Costa diz: “Seu brilho vem de dentro para fora.”

Ela contou que os poemas que escreveu para a Semana da Poesia abriram as portas para criação de seus livros. “A cultura transforma vidas. A escrita é uma terapia”, afirmou.

É o que sente também o comissário da Infância e da Juventude Anderson Tadeu Campelo de Oliveira Reis, do Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Autor de Atos Infracionais de Belo Horizonte (CIA- BH).

Ele participa da Semana desde sua 1ª edição e contou que foi uma mulher quem o provocou a escrever: foi a forma que encontrou para aliviar sua dor ao ver a mãe em um Centro de Terapia Intensiva (CTI) após um acidente doméstico.

“Na pausa que eu tinha, quando chegava em casa, eu escrevia para desabafar. Isso funcionou como uma válvula de escape para eu poder me equilibrar. A literatura é uma tratadora de alma, né?”, disse Anderson Reis.

Como o ocorrido com sua mãe foi próximo à Semana da Poesia, o comissário revelou que sua escrita surgiu desse entrelaçamento e que, ao escrever, sentiu o que faltava para seu pertencimento: a respeitabilidade.

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O texto do jornalista Marcelo Almeida, da Ascom-For do TJMG, fala que o homem não devia ser foco de poesia (Crédito: Gláucia Rodrigues / TJMG) 

“Tenho muito carinho por esse espaço que é ofertado para nós. É a oportunidade de convivência, de troca de experiências. É um patamar igual para todos. Estão aí pessoas que estão escrevendo pela 1ª vez, o desembargador, alguém que já escreveu algumas vezes, alguém que perdeu o medo. Acho bacana esse espaço democrático verdadeiro das nossas comarcas”, comentou o comissário.

Quem também participou de várias edições da Semana da Poesia, na verdade, de mais de 10, é o jornalista Marcelo Almeida, da Ascom-For, da Comarca de Belo Horizonte.

“Escrever, além de fazer parte do meu trabalho, é também momento de lazer e prazer diário. Por coincidência, com o tema enfatizado na mulher este ano, o meu texto fala justamente que o homem não devia ser foco de poesia. E eis que estou aqui, sendo alvo e arqueiro ao mesmo tempo, talvez para lembrar que, mesmo quando o tema parece nos afastar, a poesia sempre encontra um caminho para provar que quem manda é a criatividade, a cadência e a imaginação.”

Abertura

Na abertura do evento, o presidente do TJMG, desembargador Luiz Carlos Corrêa Junior, falou sobre o “prazer da escrita”. Segundo ele, os inúmeros poetas no Judiciário demonstram que, “além de trabalharmos muito, além de nos dedicarmos às nossas atividades, nós também temos tempo, tempo para a poesia”.

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O presidente Corrêa Junior destacou que a Semana da Poesia coincidiu com um momento emblemático no TJMG, em que se celebrava a Semana da Consciência Negra (Crédito: Gláucia Rodrigues / TJMG)

O presidente destacou ainda a realização da Semana da Poesia com o tema “mulher” em um momento emblemático no TJMG, com várias ações em celebração do Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra (20/11), proporcionando, assim, a discussão de temas relevantes e atuais para a sociedade.

“Foi uma oportunidade de nós conhecermos uma realidade que é muito importante que esteja no nosso dia a dia, para que nós não nos esqueçamos dela. Temos que ter consciência de que, embora tenhamos uma miscigenação racial em nossa sociedade, nós ainda temos um racismo estrutural que tem que ser enfrentado em todas as esferas e nada melhor que o façamos no âmbito do Poder Judiciário, que é um órgão encarregado de fazer justiça; e fazer justiça vai muito além de julgar processos. Nós temos que tratar a todas e todos com dignidade.” 

No dia 19/11 também foi protagonizada a abertura dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que vai de 20/11 a 10/12

No TJMG, a iniciativa é capitaneada pela Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Comsiv). O objetivo do projeto é informar, prevenir e conscientizar todas as mulheres – vítimas ou não – da importância da prevenção, do apoio mútuo e da solidariedade coletiva em favor daquelas que sofrem qualquer forma de violência.

“O período celebra a obrigação de combatermos essa chaga social que é a violência contra a mulher. Embora caiba ao Poder Judiciário punir exemplarmente todos aqueles que descumpram a lei denominada Maria da Penha [Lei nº 11.340/2006], é muito mais importante que tenhamos uma obrigação individual de conscientizar, em especial, os homens de que a violência doméstica em qualquer esfera é inadmissível. Então comemorar, festejar que nós estamos combatendo essa chaga social tem uma relevância muito grande”, afirmou a superintendente da Comsiv, desembargadora Teresa Cristina da Cunha Peixoto.

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A superintendente da Comsiv, desembargadora Teresa Cristina da Cunha Peixoto, falou também sobre o projeto 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher (Crédito: Gláucia Rodrigues / TJMG)

Ela ressaltou que a abertura da 18ª Semana da Poesia às vésperas do início do projeto do CNJ não foi uma coincidência, mas uma declaração propositada, como ela mesmo pontuou: “Uma declaração de que a arte e a cultura são e devem ser ferramentas potentes e aliadas indispensáveis na nossa jornada por uma sociedade justa e livre das violências de gênero.”

“Esses 21 dias de ativismo que se iniciam simbolicamente nesta data e se estendem até 10/12 transcendem o mero calendário institucional, vinculando-se à mobilização internacional que anualmente convoca atenção global para a urgência que é da necessidade de eliminação da violência de gênero”, disse a desembargadora Teresa Cristina da Cunha Peixoto.

O fim da ação coincide com o Dia Internacional dos Direitos Humanos, em 10/12, que marca a adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1948.

A superintendente da Comsiv explicou que esse contexto reforça o compromisso inegociável do Tribunal de Justiça não apenas com a repressão e a punição dos agressores, mas, principalmente, com a conscientização contínua, “reconhecendo que a superação da violência exige uma transformação cultural profunda, sistêmica e a garantia irrestrita dos direitos fundamentais de todas as mulheres em todas as suas diversidades e complexidades”.

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A juíza Roberta Chaves foi convidada para falar na abertura do evento, e tratou de violência e poesia (Crédito: Gláucia Rodrigues / TJMG)

Ainda na abertura da 18ª Semana da Poesia, o juiz diretor do Foro da Comarca de Belo Horizonte, Sérgio Henrique Cordeiro Caldas Fernandes, convidou a juíza Roberta Chaves Soares, do 4º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da Capital mineira, para falar sobre o tema, para o qual converge vários outros: 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra Mulheres e Meninas (25/11) e o Mês da Consciência Negra.

A magistrada apontou dados alarmantes, mas também alento com o evento de poesia:

“Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, quatro mulheres são mortas a cada dia. Infelizmente, por serem mulheres. Diante dessa realidade, aqueço o coração e a alma, com a criação, a qual tenho a honra de apresentar, dessa obra literária, cujo tema é a ‘mulher’. Este livro de poesia traz alento e esperança, retratando a mulher em todas as suas formas, forças, sensibilidade, coragem, amor e resistência. Aqui a mulher é corpo e alma, riso e lágrima, silêncio e fala.”

Segundo a juíza Roberta Chaves, os poemas, agora, pertencem a todos e passam a fazer parte da vida, da história, dos sonhos e da conquistas de suas leitoras e leitores. 

Foi assim que Isabela Satto se inspirou para criar seu poema que, de acordo com ela, nasceu da admiração por todas as mulheres que a antecederam, que lhe serviram de referência e deixaram algum legado. Além disso, afirmou que a vontade de escrever se deu “por si, pelas outras e pelas que ainda viriam” – como sua sobrinha de 6 anos, presente no evento. 

A elas, dedicou simbolicamente os versos de “Só porque eu sou mulher”. Meses após escrever o poema, Isabela Satto iniciou um estágio em uma Vara de Violência Doméstica do TJMG, que durou um ano e que, para ela, marcou profundamente sua trajetória.

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Segundo a estreante Isabela Satto, sua admiração pelas mulheres que a antecederam serviram de dedicação para seu poema “Só porque eu sou mulher” (Crédito: Gláucia Rodrigues / TJMG)

Depois de atuar em outras áreas, teve a oportunidade de retornar ao Tribunal em 2022 como assistente de apoio na Vara de Violência Doméstica, momento em que percebeu que um ciclo se fechava: aquela vocação que começou a se delinear no poema de 2018, foi tema de sua pós-graduação e, hoje, orienta suas escolhas profissionais.

A atuação na Vara especializada, segundo ela, levou à compreensão da importância do trabalho realizado pela Justiça para se alcançar a igualdade de fato e a plena promoção dos direitos das mulheres, mas também ao entendimento do quanto ainda falta ser feito. Por isso, disse que assumiu como uma missão que “abraça com convicção e propósito de sua carreira jurídica”.

As histórias, os marcos, as falas e os poemas demonstram um pouco da síntese do que é ser mulher pelo olhar da juíza Roberta Chaves:

“Ser mulher é carregar o mundo no olhar e ainda ter tempo para sonhar.”
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Os poemas da 18ª Semana da Poesia vão ficar expostos no saguão do Fórum Cível e Fazendário, na av. Raja Gabáglia (Crédito: Gláucia Rodrigues / TJMG)

Para a desembargadora Teresa Cristina da Cunha Peixoto:

“A poesia, com sua licença para tocar a alma, tem o poder de traduzir em verso as dores silenciadas, as lutas diárias, as alegrias conquistadas e a resiliência infinita que constituem o universo feminino. A arte nos permite enxergar para além dos atos.”

E como diriam os compositores e poetas mineiros Fernando Brant e Milton Nascimento, que tiveram versos citados por Isabela Satto: “É preciso ter sonho sempre / Quem traz na pele essa marca / Possui a estranha mania de ter fé na vida.”

Mais sonhos

Durante a 18ª Semana da Poesia, as jovens Bia Paz e Joana Santos lançaram seu 1º livro, escrito em conjunto e que, segundo elas, foi fruto de um sonho e da amizade.

“Era um poder muito grande essa amizade, que se tornou essa história”, afirmou a dupla. A história começou a ser delineada em 2023, durante uma brincadeira e ganhou forma na Semana da Poesia.

“Nas férias de 2023, nós, as quatro amigas, cada uma representava um elemento da natureza e a aí a gente decidiu escrever.”

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Joana Santos e Bia Paz lançaram seu 1º livro, escrito em conjunto, na 18ª Semana da Poesia (Crédito: Gláucia Rodrigues / TJMG)

No livro, as quatro personagens Bia, Cora, Joana e Malu adquirem super-poderes no combate à vilã Poluição. Elas se unem para superar desafios, mostrando a importância do trabalho conjunto.

O livro foi ilustrado pelo colaborador Pedro “Lik” Moreira, da Diretoria de Comunicação Executiva (Dircom) do TJMG.

O evento foi marcado ainda pelo lançamento do livro “Poesia sem, com poesia: dos idos de 80 até os dias de hoje”, de Lêda Gans, e pela apresentação da cantora Nega Jackie. Ela interpretou especialmente canções de mulheres brasileiras negras.

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O evento contou ainda com apresentação da cantora Nega Jackie, que interpretou especialmente canções de mulheres brasileiras negras (Crédito: Gláucia Rodrigues / TJMG)

Veja outras imagens do evento no Flickr oficial do TJMG.

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