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25/05/18 13:09

 
 

 

Histórias de abandono, negligência e violência aguardando uma mudança de enredo compõem as páginas dos processos de adoção. De um lado, a fragilidade e a necessidade de acolhimento; do outro, braços e corações dispostos a abraçar, envolver-se, doar-se... Um recomeço, um novo capítulo começa a ser escrito nas vidas de quem é adotado e de quem adota. O medo, a insegurança e o estranhamento de conviver com um novo ser, comuns também na vida de pais biológicos, vão dando espaço a outros sentimentos, a novas descobertas e à certeza de que o amor supera qualquer laço de sangue.

Ser mãe sempre foi um desejo de Karen, mas, por vezes, a carreira profissional falou mais alto que a vida pessoal. Até que chegou o momento em que ela percebeu que a vida não fazia sentido sem a família. Nessa ocasião, Karen morava em outro estado e trabalhava como médica em um dos principais centros de referência de sua especialidade. “Pensei, refleti e concluí que ser mãe era o que eu mais queria naquele momento e, por isso, não me importava se a minha filha – sempre quis uma menina – seria da barriga ou do coração. Assim, optei por abrir mão do que eu tinha lá e por recomeçar, pertinho da minha família”, contou.

Tão logo se organizou em Belo Horizonte, Karen começou a estudar o processo de adoção, entrando com a documentação necessária para conseguir a habilitação. Cumpriu todas as etapas em oito meses: “Aproximadamente 70 dias após a habilitação, recebi um telefonema. Havia uma criança disponível para a adoção com o perfil que eu havia solicitado: sexo feminino, branca ou parda, até 3 anos e meio de idade, com algum problema de saúde. No dia seguinte, já estávamos no abrigo. Peguei aquele ser estranho no colo, totalmente sem jeito e extremamente emocionada. Tentei ganhar um sorriso, sem muito sucesso. Chamou-me atenção a tristeza no olhar daquele bebê tão novinho...”

 

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Karen contou que, ao ler o relatório médico, não entendeu nada. Mas o diagnóstico era o menos importante naquele momento. Voltou para o trabalho, sem conseguir concentrar-se. “Ao deitar, fiz uma prece, pedi a Deus para me ajudar a tomar a melhor decisão e sonhei que eu estava cuidando dela.... Não havia prova maior no mundo de que ela era minha, toda minha. Em menos de 24 horas eu já queria dar a resposta e queria trazer a minha filha em definitivo para casa, mas isso não foi possível: precisei aguardar por cinco intermináveis dias. Mas ela chegou. De estranhas, passamos a ser o amor da vida da outra. Logo após decidir pela adoção comecei a traçar o plano terapêutico, o que incluiu tratamento médico e com equipe multidisciplinar. Hoje ela esta ótima”, emociona-se. Sobre o sentimento que essa experiência lhe trouxe, ela responde: “Amor, muito amor”.

 

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O trabalho é árduo na Vara Cível da Infância e da Juventude da Comarca de Belo Horizonte, já que o processo de adoção envolve várias etapas. Analisar, com toda cautela possível, as necessidades de cada criança disponível para adoção e a situação dos interessados em adotar são tarefas criteriosas que demandam responsabilidade. O ato de adotar requer convicção daqueles que optam por esse caminho. “A motivação dos pretendentes à adoção tem que ser legítima”, ressalta a coordenadora do Setor de Estudos Técnicos da Vara Cível da Infância e da Juventude da Comarca de Belo Horizonte, psicóloga judicial Rosilene Barroso.

São vários os perfis de crianças escolhidos por interessados em adotar – bebês de zero a um ano, independentemente da cor e do sexo; crianças de zero a três anos, de ambos os sexos e com problemas de saúde tratáveis; meninos e meninas de zero a cinco anos saudáveis, e assim por diante. Mas, muitas vezes, explica Rosilene Barroso, o perfil das crianças e ou adolescentes inicialmente declarado pelos pretendentes não condiz com a rotina destes. “Temos que promover essa reflexão junto aos interessados, tendo em vista os melhores interesses da criança.”

Confira abaixo a primeira entrevista gravada com o juiz Marcos Flávio Lucas Padula, da Vara Cível e da Infância e da Juventude da comarca de Belo Horizonte:

 

 

 

Há mais de 25 anos atuando na Vara Cível da Infância e da Juventude de Belo Horizonte, Rosilene coleciona, na lembrança, muitos casos de adoção bem-sucedidos e histórias surpreendentes. Como o de um senhor que adotou um menino e, tempos depois, ao passar ao lado de uma instituição de acolhimento, viu uma criança parecida com a que tinha adotado. Descobriu que eram irmãos. Não teve dúvida: adotou-a também.

Rosilene tem registrado também, em seu celular, momentos felizes de pais e filhos cujos processos passaram em suas mãos. “Recebo, diariamente, fotos dessas famílias, demonstrando a alegria desses encontros”, celebra. Ela se lembra também de um casal que adotou um menino cuja mãe era usuária de crack. O bebê, que nasceu com vários problemas de saúde, já passou por cirurgia e outros tratamentos médicos e vem se desenvolvendo bem. “Conseguir um lar para uma criança é sempre motivo de comemoração. Mais ainda quando se trata de alguém que requer atenção e cuidados especiais”, declara.

Confira abaixo a segunda entrevista gravada com o juiz Marcos Flávio Lucas Padula, da Vara Cível e da Infância e da Juventude da comarca de Belo Horizonte:

 

 
 

 

Rosilene Barroso informa que, quando há uma criança disponível para adoção, o setor verifica a lista de habilitados. Se o próximo pretendente do cadastro optou por perfil ligeiramente diferente daquele da criança disponível, ele é consultado e, muitas vezes, abre mão do perfil inicial. “Percebemos, com maior frequência, que os pretendentes têm revisto as suas preferências, abrindo o leque de possibilidades quanto à idade da criança”, ressaltou.

A psicóloga destacou ainda que houve uma redução do número de recém-nascidos abandonados em vias públicas em 2015. Observa-se, agora, que a maior parte dos bebês são deixados na maternidade pelas mães, havendo também aquelas que procuram a Vara da Infância e declaram em audiência que não desejam ficar com o filho.

Sobre a atuação da Vara Cível da Infância e da Juventude, Rosilene Barroso explica que a vara situa-se na extremidade de toda uma rede de proteção e garantia de direitos da criança e do adolescente, acionada quando todas as tentativas para resolver os problemas de convivência na família biológica não se mostraram eficazes. Os estudos técnicos oferecem ao juiz a visão psicossocial dos casos e sugerem os encaminhamentos necessários a cada um – acompanhamento temporário pelos conselheiros tutelares, tratamentos médicos e com psicólogos, inclusão de famílias em programas sociais de apoio e promoção, entre outros.

 

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“Eu tinha o desejo de ter um filho biológico e outro do coração e, graças a Deus, sempre tive o apoio do meu marido. Após alguns anos de casada, fiquei grávida da primeira menina. Tempos depois e com a primeira filha já crescida, sentimos que já era hora de colocar o sonho em prática, iniciando o processo de adoção, que se estendeu por dois anos. Em janeiro de 2015, a boa notícia veio: uma menina de 3 anos nos aguardava para ser adotada. Esse ‘parto’ estaria chegando ao fim, e a nossa pequena Júlia estava pronta para ‘nascer’ em nossos corações.”

O testemunho é da analista de recursos humanos Rosilene, que desde pequena sonhava em adotar uma criança. A ansiedade era tão grande que, um dia antes de ir ao abrigo e conhecer a filha, sentiu dores abdominais semelhantes às do parto. Para Rosilene, foi amor à primeira vista, e uma grande coincidência deixou perplexa a assistente social que a acompanhava. “Ao vê-la, entre todas as crianças que estavam ali, disse bem alto: é ela, aquela é a minha filha! Júlia não nasceu de mim, mas para mim”, declarou.

 

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Casos de adoção de crianças com mais de 3 anos também são registrados em outras comarcas de Minas. A assistente social Angélica Silva, da Comarca de Uberaba, acompanhou a adoção de um menino de 5 anos: “O casal queria adotar um bebê, ficou anos na fila e, quando decidiu mudar o perfil pretendido, liguei para ele, alguns dias depois. Uma história bem difícil, pois a mãe da criança era falecida e ela tinha vínculo afetivo com o pai, que, por sua vez, enfrentava problemas de saúde e dependência do álcool, sem as mínimas condições de cuidar do filho”.

Relatou que o menino foi para adoção em outro estado, com um casal habilitado no Cadastro Nacional de Adoção. “Tivemos muitos desafios na construção do vínculo dele com os novos pais, houve resistência em aceitar a nova família, a nova história, uma vez que demonstrava preocupação com o pai biológico. Consegui com que esse pai escrevesse uma carta para o filho, falando do desejo de que fosse feliz, aceitasse e respeitasse o casal, pelo qual tinha gratidão em tê-lo acolhido. Foi um momento muito importante! Hoje ele está com 8 anos, superou muita coisa, é um menino muito amado”.

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A família foi muito determinada, pois viveu dificuldades que não teria conseguido superar, se não tivesse recebido acompanhamento e apoio, destaca a assistente social. “Infelizmente, há um ano, o pai adotivo, um homem saudável, morreu de infarto fulminante. Hoje o menino e a mãe seguem juntos. Ela me disse, no dia da morte do marido, como foi importante ele ter vivido a experiência de ser pai”, relembrou a assistente social.

 

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Outra experiência relatada por Angélica Silva foi a de uma menina encaminhada também para outro estado, com 6 anos de idade: “Chegando lá, tudo lindo e perfeito... Passados alguns dias começaram muitos problemas, com conflitos cotidianos. A criança pediu para ir embora, disse que aqueles não eram os pais dela. Os pais me ligaram. Na tentativa de mediar a situação, foram dias de muito diálogo, encaminhamento para outros profissionais, dedicação de todos os lados. Hoje ela é uma moça linda, acompanho as fotos, os pais são apaixonados e felizes; e ela, uma jovem cheia de sonhos. Parece que nem se lembram daquele momento.”

A assistente social Angélica Silva defende a desmistificação da adoção tardia. De acordo com ela, a criança que viveu mais tempo com a família de origem e nas instituições de acolhimento pode ter vivido histórias muito difíceis de violação de direitos, negligência e violência – memórias importantes na constituição da história de vida. Porém, há um potencial muito grande para a construção de novos vínculos, especialmente quando é acolhida por famílias que desejam de fato ter filhos e assumir os desafios.

 

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É preciso entender que não apagamos a história vivida. A origem é o lugar de onde essa criança vem, portanto merece respeito. Depois que o filho chega, seja pelo caminho biológico, seja pela adoção, ele é simplesmente filho. Temos que entender que há questões particulares ao momento, ao desenvolvimento das fases da vida, à idade; e há questões que são advindas da adoção. Há situações que surgem e são próprias da pessoa, do casal e da relação. Não é possível justificar todos os problemas surgidos apenas pela adoção. Filhos devem ser recebidos, amados, cuidados e orientados pela vida toda, isso faz o vínculo ser construído dia após dia, o que exige paciência, tempo, dedicação.

Para viver a adoção considerada tardia, destaca Angélica Silva, os pretendentes precisam ter clareza das motivações que os conduzem a essa decisão, estar abertos para aprender e apreender sobre a experiência de serem pais, sem medos e preconceitos que paralisem, pois essa experiência exige um movimento dinâmico e intenso cotidianamente. É importante, continuou, que a decisão seja sempre dos pretendentes. “Como profissionais e grupos de apoio, podemos contribuir para as reflexões acerca das adoções necessárias, de crianças maiores, adolescentes, com necessidades especiais, grupos de irmãos, mas cada um deve conseguir identificar aquilo que é possível viver”, ressaltou.

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“Um milagre em nossas vidas.” Assim o casal Beatriz e Henrique, residente na Região Metropolitana de Belo Horizonte, define a chegada do pequeno João em suas vidas. A história deles revela que, mesmo para aqueles que sonham em ser pais de um bebê, a adoção também pode ser o caminho. Eles já aguardavam havia sete anos na fila de adoção. Mesmo assim, a chegada da criança, à época com menos de dois meses, pegou-os de surpresa e causou uma reviravolta na rotina do casal, de vida social intensa. Embora tenham acompanhado de perto o crescimento da sobrinha, hoje adolescente, ter um bebê em tempo integral, demandando atenção e cuidados, quebrando a rotina da casa, mudando as prioridades do casal, transformou a vida dos dois.

Em pouco tempo, a casa, estruturada para atender às necessidades de dois adultos, teve que ser preparada para acolher um bebê. Roupinhas, fraldas, móveis, mamadeiras, banheira e muitos outros objetos necessários a um recém-nascido tomaram conta do ambiente. Uma nova agenda de horários e exigências mudou o ritmo da casa, enchendo de encantamento todos os espaços. A partir daquele momento, tudo seria diferente para eles, a vida os abençoara com aquela criança: novas responsabilidades, descobertas e alegrias. Ao apresentar o filho para familiares e amigos, em celebração festiva, eles externaram toda a emoção sentida: “João é um presente de Deus para nós”. Hoje, com um ano, o bebê é a alegria da casa. Nos olhos dos pais, a certeza da decisão tomada e do sonho possível.

 

 

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Créditos

Coordenação Plural
Wilson Menezes

Reportagem
Vanderleia Rosa

Edição de Vídeo
Jessica Hissa

Edição de web
Danilo Pereira

Webdesign
Leonardo Pacheco de Souza
 

Fotografia
Robert Leal

Revisão de texto
Patrícia Limongi

* Nesta matéria, ora foram usados os primeiros nomes dos personagens, ora nomes fictícios

** Agradecimentos especiais à Sofia Queiroga Hood

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