O uso considerado excessivo de telas na primeira infância foi o tema de abertura do 2º dia do evento “Primeira Infância, Governança e Responsabilidade Institucional", nesta quinta-feira (25/6). A iniciativa é promovida pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), por meio da Coordenadoria da Infância e da Juventude (Coinj), em parceira com Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG).
A primeira palestra, intitulada “Desenvolvimento Infantil, Neurociência e Retorno Social do Investimento: Saúde Mental e o Impacto do Uso de Telas na 1ª Infância”, foi proferida pela psiquiatra Julia Machado Khoury, membro titular da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), com mediação da juíza da Vara da Infância e da Juventude e de Cartas Precatórias Cíveis da Comarca de Teófilo Otoni e integrante da Coinj/TJMG, Aline Gomes dos Santos Silva.
Na abertura da palestra, a magistrada ressaltou que o plano voltado para a primeira infância precisar considerar, entre outras ações, os impactos tecnológicos nas crianças entre 0 e 6 anos, devido ao uso considerado excessivo:
“Ter políticas públicas firmadas no plano da primeira infância, que contemplem um movimento contrário ao uso excessivo de telas, é o que traz robustez para esse plano, que é a prática de esportes e educação inclusiva e em tempo integral, que auxiliem as famílias que não têm condições de ter uma rede de apoio para essas crianças.”
Novas habilidades
A psiquiatra Julia Machado Khoury fez um panorama da situação do uso de telas por crianças, destacando que as ferramentas tecnológicas estão cada vez mais frequentes na infância:
“Elas adquirem mais conhecimento pelas telas do que por qualquer forma ou método, e se tornam íntimas das telas mesmo antes da alfabetização. Vão adquirindo muita habilidade no uso dessas telas antes de adquirir outras habilidades que, antigamente, as crianças adquiriam primeiro.”
Outro ponto apresentado pela especialista é que as crianças com mais tempo de tela podem ter dificuldade de expressar sentimentos para outras crianças: “Elas expressam sentimentos por mensagens”.
Porém, ela ressaltou que não adianta combater as tecnologias, mas aproveitar o que podem contribuir com a formação das crianças:
“Existem estudos que mostram o aumento do número de palavras e do vocabulário utilizado por crianças que têm mais contato com as telas.”
Um dos caminhos para se reduzir o uso considerado excessivo de telas deve ser, de acordo com Júlia Machado Khoury, passa pela implementação de políticas públicas voltadas para o incentivo da prática de esportes, de danças e de artes, entre outras atividades fora do ambiente virtual.
Segunda ela, outro ponto importante é a implementação de políticas públicas que incentivem o acesso mais rápido e amplo à rede de saúde mental para crianças com problemas decorrentes do uso das telas. Isso pode aumentar a chance de sucesso na recuperação: “O quanto mais rápido essas crianças tiverem acesso ao tratamento, maior é a chance de sucesso.”
Proteção integral
Na sequência, foi realizada a palestra “Proteção Integral, Família e Prevenção de Violações”, com a psicóloga Ivânia Ghesti, servidora da Assessoria da Coordenação da Infância e da Juventude do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDF).
A palestrante abordou temas como estratégias de governança colaborativa em políticas públicas; Marco Legal da Primeira Infância; comitê intersetorial de políticas públicas para a primeira infância; pacto interfederativo e dever do Estado; e plano nacional e planos estaduais e municipais pela primeira infância.
Iniciativas e boas práticas
A parte da tarde do evento começou com o painel "Desigualdades, Territórios e Primeira Infância. Eixos: Crianças indígenas e quilombolas; Primeira infância e pobreza; Justiça territorial".
Participaram do debate a médica, empreendedora social e fundadora do Instituto Dara,Vera Cordeiro; a diretora executiva do Instituto Dara, Sabrina Porcher; e a jornalista e educadora Desirée Ruas. Foram debatidas as disparidades sociais que afetam as crianças brasileiras.
O encerramento contou com o painel "Fórum Estadual dos Juízes da Infância e da Juventude (Foeji) – Boas Práticas e Experiências Exitosas", com apresentações do juiz da Vara da Infância e da Juventude da Comarca de Juiz de Fora e presidente do Foeji/MG, Ricardo Rodrigues de Lima, e o juiz da Vara Única da Comarca de Muzambinho e integrante da Coinj/TJMG, Flávio Umberto Moura Schmidt. A mediação foi da superintendente da Coinj/TJMG, desembargadora Alice de Souza Birchal.
O juiz Ricardo de Lima discorreu sobre o papel do magistrado como indutor de políticas públicas estruturantes, exemplificando com a criação do Plano Municipal da Primeira Infância de Juiz de Fora.
Complementando essa visão, o juiz Flávio Schmidt relatou sua experiência com o depoimento especial e a escuta protegida, visando evitar a revitimização de crianças no Sistema de Justiça. Ele destacou também a experiência que deu origem ao seu livro “Antes que o Silêncio Apague a Verdade”, lançado no mês passado.
A desembargadora Alice Birchal encerrou o painel abordando a normalização da violência e a importância do programa "Minas Apadrinha", que busca criar vínculos afetivos para jovens com baixa probabilidade ou que não se encaixam nos critérios para adoção.
Balanço
A superintendente da Coinj/TJMG destacou, ainda, o alto nível de produtividade e sucesso alcançado pelo evento, ressaltando a parceria com o TCEMG:
"Tivemos diversas abordagens e trocas de experiências, com pessoas de outras cidades de Minas Gerais e também de outras partes do Brasil. Foi um evento muito frutífero, onde foi possível conhecer as boas práticas relacionadas à infância e à juventude. O sucesso do evento se deu muito à colaboração do Tribunal de Contas do Estado, que nos forneceu uma estrutura excelente, e também à qualificação dos palestrantes e do público. Foram trabalhados diversos temas e todos nós estamos voltando com um ótimo material para ser replicado."
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